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Monografia
apresentada ao Departamento de Antropologia da Universidade Federal de
Roraima, como requisito parcial para obtenção do grau de
Bacharel em Ciências Sociais, com Habilitação em Antropologia
Social.
Boa Vista / RR / 1998
O presente estudo tem por objetivo tratar, sob um ponto de vista antropológico,
do processo de socialização das crianças e adolescentes
que participam das Galeras de Boa Vista e das representações
que estes têm de si mesmos e do meio em que vivem. Visa ainda contribuir
para a análise antropológica do fenômeno da violência
urbana em Boa Vista e para a busca de explicações psico-sócio-culturais
das causas geradoras do fenômeno das galeras juvenis, que se formam,
se organizam e se transformam a cada dia, em quase todos os bairros da
cidade, deixando a população desses bairros em estado de
pânico diante de ações cada vez mais violentas desses
grupos largamente considerados como delinqüentes.
"Meu envolvimento com galera começou assim: uns moleques conhecidos
meus chegavam e diziam: 'S., vamos alí dá uma volta?"
Chegava lá, tava aquele monte reunido. Aí eu começava
me aproximando, aproximando, até que eu não voltava mais
pra casa... Eram colegas do próprio bairro, eu já sabia
que eles eram de galera. Eles me convidavam só pra dá um
rolé... Se andava pelas ruas, se jogava pedra nos ónibus,
nos carros da polícia... A gente provocava os PMs e, às
vezes, eles davam uns papoucos no rumo da gente. A galera se reunia as
vezes só pra fazer arruaça, só pra bagunçar.
Fui indo assim e fui me acostumando. Fui uma vez, fui duas... Lá
no nosso bairro a gente tinha um setor só pra gente, um lagar onde
a gente ficava, onde a galera se reunia... e lá rolava tudo: rolava
nóia, cola... Na galera o cara se sente dono do mundo, quer ser
o tal, quer ser falado... Comecei testando e só muito tempo depois
é que percebi que eu estava numa fria... Antes, galera pra mim
era simplesmente uma alegria, uma brincadeira, uma diversão, mesmo
praticando crime, eu achava divertido... Hoje, não tenho mais sossego,
galera se transformou pra mim de diversão em pesadelo, porque hoje
sou um cara marcado, eu não posso andar tranqüilamente. Se
eu for pra um bairro onde eu sou marcado e marcar boubeira, eu danço...
Eu ando sempre velhaco, nunca deixo de andar com um pau de fogo (revólver)
na cintura... Pra eu continuar vivo, eu tenho que mudar, porque senão
eu danço. Meus 17 anos estão chegando, depois vem os 18
e, se eu não mudar, quando eu tiver 18, eu danço..."
(S.C.A., 16 anos).
“O
significado do comportamento em cultura não se esgota em compreender
claramente que é um fato local, criado pelo homem e enormemente
variável. Ele é também suscetível de integração.
Uma cultura, como um indivíduo, é um modelo mais ou menos
consistente de pensamento e de ação. Dentro de cada cultura
surgem objetivos característicos não necessariamente partilhados
por outros tipos de sociedade. Em obediência a esses objetivos,
cada povo consolida cada vez mais a sua experiência, e em proporção
com a urgência daqueles, leva os heterogêneos aspectos de
comportamento a assumirem forma cada vez mais congruente. Adotados por
uma cultura bem integrada os atos mais diversos tornam-se característicos
dos fins peculiares daquela, freqüentemente através das mais
inesperadas metamorfoses. A forma que esses atos assumem só podemos
compreender começando a compreender os móbiles emocionais
e intelectuais dessa sociedade” (Ruth Benedict).
A violência urbana é um dos problemas que atualmente preocupam
muito a sociedade brasileira e o mundo como um todo. Presente em todas
as cidades de porte médio e em todas as grandes metrópoles,
a violência urbana nunca esteve tão em evidência quanto
agora. Muitos estudos científicos já foram realizados acerca
desse fenômeno social, para detectar suas causas e apontar possíveis
soluções, porém, o fenômeno persiste em franco
crescimento, demandando sempre novos estudos e novas abordagens. No contexto
da violência urbana, destaca-se um outro fenômeno social igualmente
preocupante: o da delinqüencia infanto-juvenil. A violência
cresce cada vez mais entre as crianças e os jovens do meio urbano
e muitos são os fatores que contribuem para isso, como a crise
econômica, a má distribuição de renda, o desemprego,
a miséria, o desajuste familiar, ou seja, é um fenômeno
que poderia ser caracterizado como multideterminado.
No contexto urbano de Boa Vista, além dos fatores sócio-econômicos
mencionados, há outros de caráter mais específico
que muito contribuem para a formação de indivíduos
violentos e de grupos sociais tidos como delinqüentes. São
fatores de ordem pedagógica e psico-sócio-cultural, ou seja,
fatores relacionados ao processo de socialização das crianças
e adolescentes desta cidade. Pelo que podemos observar, a partir de nossa
experiência de trabalho como Agente de Proteção da
Infância e da Juventude da Comarca de Boa Vista e pelos dados coletados
durante a realização deste estudo, acreditamos que há
uma parcela considerável da população infanto-juvenil
desta cidade que é socializada em meio familiar e social potencialmente
violento. Aprendem a conviver desde a mais tenra idade com atos e atitudes
violentas de seus pais ou responsáveis e demais familiares, os
quais se manifestam numa linguagem agressiva e “chula”, na
falta de afeto, nos maus-tratos, nas brigas conjugais, no manuseio de
armas, no uso de bebidas alcoólicas, no consumo de entorpecentes,
nas tentativas de estupros, nas histórias de conflitos com vizinhos
e outros desafetos, nas promessas de vingança etc. Ainda em casa,
as crianças começam a assimilar a violência das ruas,
através dos meios de comunicação, especialmente dos
programas policiais do rádio e da televisão local, a exemplo
dos programas “Plantão Policial” (Rádio Equatorial
FM) e “Barra Pesada” (TV Caburaí). Depois, passam a
conviver diretamente com a violência das ruas, através do
contato com outras crianças e adolescentes já habituados
à violência, no bairro onde moram, na escola onde estudam,
nos campos onde jogam “pelada” ou nos vídeo-games que
freqüentam. Muitas dessas crianças e adolescentes encontrados
nesses locais já estão em processo de inciação
ou já estão inseridos na “sub-cultura” das galeras
juvenis da cidade. São, muitas vezes, usuários de drogas
e integrantes de galeras, que tentam induzir pouco a pouco os novos colegas
à prática da violência. Todo esse processo de socialização
das crianças e adolescentes de Boa Vista é fruto de múltiplas
carências: econômicas, sociais, afetivas e emocionais. Apesar
de muitos desses infantes e jovens passarem pela escola formal, na realidade,
é a “escola da vida” e a “pedagogia da violência”,
em que são socializados, que marcam mais as suas vidas e contribuem
sobremaneira para a estruturação de suas personalidades,
potencialmente violentas.
O presente estudo tem por objetivo tratar, sob um ponto de vista antropológico,
do processo de socialização das crianças e adolescentes
que formam as Galeras de Boa Vista e das representações
que estes têm de si mesmos e do meio onde vivem. Visamos contribuir
com a análise antropológica do fenômeno da violência
urbana em Boa Vista, através da busca de explicações
psico-sócio-culturais das causas geradoras do fenômeno das
galeras juvenis, que se formam, se organizam e se transformam a cada dia,
em quase todos os bairros da cidade, deixando a população
desses bairros em estado de pânico diante de ações
cada vez mais violentas desses grupos largamente considerados delinqüentes.
Esperamos ainda que as conclusões desta pesquisa possam ser úteis
à formulação de políticas públicas
eficazes, voltadas para um processo de ressocialização das
crianças e adolescentes de Boa Vista, como alternativa adequada
para o enfrentamento do fenômeno da delinqüência infanto-juvenil
desta cidade.
O problema central desta pesquisa está fundamentado na busca de
respostas para as seguintes questões: Como e porque se formam galeras
juvenis na maioria dos bairros de Boa Vista e de que maneira seus integrantes
são socializados na prática da violência? Como os
integrantes de galeras representam a si mesmos e o meio onde vivem? Até
que ponto as crianças e adolescentes de Boa Vista reproduzem a
violência presente como ethos cultural na sociedade local?
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*Bacharel
em Ciências Sociais com habilitação em Antropologia
Social (UFRR) e especialização em violência
Doméstica Contra Crianças e Adolescentes (USP). |
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