BRINCANDO DE BRIGAR E DE MATAR

Um Estudo Antropológico sobre as Galeras de Boa Vista e a Banalidade da Violência.

 
Por José da Guia Marques*
 

Monografia apresentada ao Departamento de Antropologia da Universidade Federal de Roraima, como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Ciências Sociais, com Habilitação em Antropologia Social.
Boa Vista / RR / 1998


O presente estudo tem por objetivo tratar, sob um ponto de vista antropológico, do processo de socialização das crianças e adolescentes que participam das Galeras de Boa Vista e das representações que estes têm de si mesmos e do meio em que vivem. Visa ainda contribuir para a análise antropológica do fenômeno da violência urbana em Boa Vista e para a busca de explicações psico-sócio-culturais das causas geradoras do fenômeno das galeras juvenis, que se formam, se organizam e se transformam a cada dia, em quase todos os bairros da cidade, deixando a população desses bairros em estado de pânico diante de ações cada vez mais violentas desses grupos largamente considerados como delinqüentes.

"Meu envolvimento com galera começou assim: uns moleques conhecidos meus chegavam e diziam: 'S., vamos alí dá uma volta?" Chegava lá, tava aquele monte reunido. Aí eu começava me aproximando, aproximando, até que eu não voltava mais pra casa... Eram colegas do próprio bairro, eu já sabia que eles eram de galera. Eles me convidavam só pra dá um rolé... Se andava pelas ruas, se jogava pedra nos ónibus, nos carros da polícia... A gente provocava os PMs e, às vezes, eles davam uns papoucos no rumo da gente. A galera se reunia as vezes só pra fazer arruaça, só pra bagunçar. Fui indo assim e fui me acostumando. Fui uma vez, fui duas... Lá no nosso bairro a gente tinha um setor só pra gente, um lagar onde a gente ficava, onde a galera se reunia... e lá rolava tudo: rolava nóia, cola... Na galera o cara se sente dono do mundo, quer ser o tal, quer ser falado... Comecei testando e só muito tempo depois é que percebi que eu estava numa fria... Antes, galera pra mim era simplesmente uma alegria, uma brincadeira, uma diversão, mesmo praticando crime, eu achava divertido... Hoje, não tenho mais sossego, galera se transformou pra mim de diversão em pesadelo, porque hoje sou um cara marcado, eu não posso andar tranqüilamente. Se eu for pra um bairro onde eu sou marcado e marcar boubeira, eu danço... Eu ando sempre velhaco, nunca deixo de andar com um pau de fogo (revólver) na cintura... Pra eu continuar vivo, eu tenho que mudar, porque senão eu danço. Meus 17 anos estão chegando, depois vem os 18 e, se eu não mudar, quando eu tiver 18, eu danço..." (S.C.A., 16 anos).

“O significado do comportamento em cultura não se esgota em compreender claramente que é um fato local, criado pelo homem e enormemente variável. Ele é também suscetível de integração. Uma cultura, como um indivíduo, é um modelo mais ou menos consistente de pensamento e de ação. Dentro de cada cultura surgem objetivos característicos não necessariamente partilhados por outros tipos de sociedade. Em obediência a esses objetivos, cada povo consolida cada vez mais a sua experiência, e em proporção com a urgência daqueles, leva os heterogêneos aspectos de comportamento a assumirem forma cada vez mais congruente. Adotados por uma cultura bem integrada os atos mais diversos tornam-se característicos dos fins peculiares daquela, freqüentemente através das mais inesperadas metamorfoses. A forma que esses atos assumem só podemos compreender começando a compreender os móbiles emocionais e intelectuais dessa sociedade” (Ruth Benedict).


A violência urbana é um dos problemas que atualmente preocupam muito a sociedade brasileira e o mundo como um todo. Presente em todas as cidades de porte médio e em todas as grandes metrópoles, a violência urbana nunca esteve tão em evidência quanto agora. Muitos estudos científicos já foram realizados acerca desse fenômeno social, para detectar suas causas e apontar possíveis soluções, porém, o fenômeno persiste em franco crescimento, demandando sempre novos estudos e novas abordagens. No contexto da violência urbana, destaca-se um outro fenômeno social igualmente preocupante: o da delinqüencia infanto-juvenil. A violência cresce cada vez mais entre as crianças e os jovens do meio urbano e muitos são os fatores que contribuem para isso, como a crise econômica, a má distribuição de renda, o desemprego, a miséria, o desajuste familiar, ou seja, é um fenômeno que poderia ser caracterizado como multideterminado.

No contexto urbano de Boa Vista, além dos fatores sócio-econômicos mencionados, há outros de caráter mais específico que muito contribuem para a formação de indivíduos violentos e de grupos sociais tidos como delinqüentes. São fatores de ordem pedagógica e psico-sócio-cultural, ou seja, fatores relacionados ao processo de socialização das crianças e adolescentes desta cidade. Pelo que podemos observar, a partir de nossa experiência de trabalho como Agente de Proteção da Infância e da Juventude da Comarca de Boa Vista e pelos dados coletados durante a realização deste estudo, acreditamos que há uma parcela considerável da população infanto-juvenil desta cidade que é socializada em meio familiar e social potencialmente violento. Aprendem a conviver desde a mais tenra idade com atos e atitudes violentas de seus pais ou responsáveis e demais familiares, os quais se manifestam numa linguagem agressiva e “chula”, na falta de afeto, nos maus-tratos, nas brigas conjugais, no manuseio de armas, no uso de bebidas alcoólicas, no consumo de entorpecentes, nas tentativas de estupros, nas histórias de conflitos com vizinhos e outros desafetos, nas promessas de vingança etc. Ainda em casa, as crianças começam a assimilar a violência das ruas, através dos meios de comunicação, especialmente dos programas policiais do rádio e da televisão local, a exemplo dos programas “Plantão Policial” (Rádio Equatorial FM) e “Barra Pesada” (TV Caburaí). Depois, passam a conviver diretamente com a violência das ruas, através do contato com outras crianças e adolescentes já habituados à violência, no bairro onde moram, na escola onde estudam, nos campos onde jogam “pelada” ou nos vídeo-games que freqüentam. Muitas dessas crianças e adolescentes encontrados nesses locais já estão em processo de inciação ou já estão inseridos na “sub-cultura” das galeras juvenis da cidade. São, muitas vezes, usuários de drogas e integrantes de galeras, que tentam induzir pouco a pouco os novos colegas à prática da violência. Todo esse processo de socialização das crianças e adolescentes de Boa Vista é fruto de múltiplas carências: econômicas, sociais, afetivas e emocionais. Apesar de muitos desses infantes e jovens passarem pela escola formal, na realidade, é a “escola da vida” e a “pedagogia da violência”, em que são socializados, que marcam mais as suas vidas e contribuem sobremaneira para a estruturação de suas personalidades, potencialmente violentas.

O presente estudo tem por objetivo tratar, sob um ponto de vista antropológico, do processo de socialização das crianças e adolescentes que formam as Galeras de Boa Vista e das representações que estes têm de si mesmos e do meio onde vivem. Visamos contribuir com a análise antropológica do fenômeno da violência urbana em Boa Vista, através da busca de explicações psico-sócio-culturais das causas geradoras do fenômeno das galeras juvenis, que se formam, se organizam e se transformam a cada dia, em quase todos os bairros da cidade, deixando a população desses bairros em estado de pânico diante de ações cada vez mais violentas desses grupos largamente considerados delinqüentes. Esperamos ainda que as conclusões desta pesquisa possam ser úteis à formulação de políticas públicas eficazes, voltadas para um processo de ressocialização das crianças e adolescentes de Boa Vista, como alternativa adequada para o enfrentamento do fenômeno da delinqüência infanto-juvenil desta cidade.

O problema central desta pesquisa está fundamentado na busca de respostas para as seguintes questões: Como e porque se formam galeras juvenis na maioria dos bairros de Boa Vista e de que maneira seus integrantes são socializados na prática da violência? Como os integrantes de galeras representam a si mesmos e o meio onde vivem? Até que ponto as crianças e adolescentes de Boa Vista reproduzem a violência presente como ethos cultural na sociedade local?

*Bacharel em Ciências Sociais com habilitação em Antropologia Social (UFRR) e especialização em violência Doméstica Contra Crianças e Adolescentes (USP).