Neste caso, foi uma represália à homologação
da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, cujo decreto
foi assinado pelo Presidente Lula em Abril, após
quase 30 anos de esforços por parte dos índios
e seus aliados, e especialmente, nos últimos anos,
pelo Conselho Indígena de Roraima (CIR). Este ataque
buscou intimidar os povos indígenas que nesta semana
celebraram a homologação com uma grande festa,
realizada em três aldeias diferentes, e para qual
foi previsto o abate de 200 reses provenientes dos rebanhos
indígenas.
Interesses
contrários à homologação incluem
grandes produtores de arroz, que ocupam ilegalmente partes
da Terra Indígena, causando danos ambientais e aliciando
índios para serem do “contra”, processo
que resultou numa situação esdrúxula
de índios protestando contra a homologação
de uma terra indígena, preferindo áreas menores,
divididas, e que abrissem espaço para os arrozeiros
e outros invasores.
Mas
a leitura deste conflito pode ser levada muito além.
Não é só uma questão de direito
indígena – é também uma luta
entre paradigmas e ideologias que determinam a relação
homem/natureza e que se trava no espaço territorial
e social de Roraima. Por um lado, está um modelo
de ocupação que preza o relacionamento industrial
e predatório com os recursos naturais e meio-ambiente,
a partir dos agronegócios e uma agricultura altamente
mecanizada e dependente em produtos químicos. Em
oposição, um modelo que preza os direitos
indígenas e busca uma compreensão melhor da
relação homem/natureza, subjugando os interesses
individuais a uma reflexão sobre as necessidades
do coletivo, a qual passa pelo respeito ao meio-ambiente,
reconhecendo o caráter essencial e insubstituível
dos serviços ambientais.
O modelo
industrial tem sido empurrado para os povos indígenas
de Roraima como solução para uma série
de problemas, a partir de projetos, doação
de maquinários, etc., num nítido esforço
para substituir a agricultura tradicional com algo mais
“moderno”. Ignora-se que a agricultura tradicional
tem sido a base da sustentação dos povos indígena
há milênios, e que sua substituição
e perda acarretarão, não uma nova era de prosperidade,
mas sim, o aprofundamento dos problemas alimentares, nutricionais,
e sociais.
A Escola
do Surumu entra nesta história justamente porque
busca um modelo alternativo ao desenvolvimento agrícola
convencional, procurando manter a introdução
de novas tecnologias e práticas sempre em sintonia
com as necessidades e capacidades das comunidades, e respeitando
sua agricultura tradicional. Além de buscar um modelo
agrícola mais sustentável, sem a dependência
de produtos químicos e agrotóxicos, a Escola
do Surumu tem como proposta o constante processo de discussão,
reavaliação e reformulação junto
às lideranças das comunidades indígenas
ligadas ao CIR. Os alunos, escolhidos coletivamente pelas
aldeias para se formarem na escola, assumem o compromisso
de dedicar sua futura atuação profissional
a um retorno para as aldeias de origem e/ou para a organização
indígena.
Não
é de estranhar, em vista desta filosofia, que a Escola
do Surumu tenha atraído a ira dos que são
contra a homologação da Terra Indígena,
e contra o fortalecimento da auto-gestão e dignidade
dos povos indígenas de Roraima. Mas, a prova de que
a Escola está trilhando o caminho certo será
o esforço de fazer a sua reconstrução,
mostrando que a violência não é arma
suficiente para acabar com o movimento de respeito aos direitos
humanos e ao meio-ambiente.
Estamos lançando a CAMPANHA PARA RECONSTRUÇÃO
DA ESCOLA DO SURUMU. Quem puder contribuir com
dinheiro, ótimo. Quem não tiver dinheiro sobrando,
poderá também contribuir, doando livros (não
só técnicos!), materiais, mão-de-obra,
auxílio técnico, tempo, e solidariedade.