CAMPANHA PELA RECONSTRUÇÃO DA ESCOLA SURUMU
- Centro Indígena de Formação e Cultura Raposa Serra do Sol -
 
A destruição das dependências físicas da Escola do Surumu na noite de 16 de setembro por um grupo de mais de 100 homens encapuzados e armados, índios e não-índios, representa mais um capítulo triste e vergonhoso na história da luta pelos direitos dos povos indígenas.


Neste caso, foi uma represália à homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, cujo decreto foi assinado pelo Presidente Lula em Abril, após quase 30 anos de esforços por parte dos índios e seus aliados, e especialmente, nos últimos anos, pelo Conselho Indígena de Roraima (CIR). Este ataque buscou intimidar os povos indígenas que nesta semana celebraram a homologação com uma grande festa, realizada em três aldeias diferentes, e para qual foi previsto o abate de 200 reses provenientes dos rebanhos indígenas.

Interesses contrários à homologação incluem grandes produtores de arroz, que ocupam ilegalmente partes da Terra Indígena, causando danos ambientais e aliciando índios para serem do “contra”, processo que resultou numa situação esdrúxula de índios protestando contra a homologação de uma terra indígena, preferindo áreas menores, divididas, e que abrissem espaço para os arrozeiros e outros invasores.

Mas a leitura deste conflito pode ser levada muito além. Não é só uma questão de direito indígena – é também uma luta entre paradigmas e ideologias que determinam a relação homem/natureza e que se trava no espaço territorial e social de Roraima. Por um lado, está um modelo de ocupação que preza o relacionamento industrial e predatório com os recursos naturais e meio-ambiente, a partir dos agronegócios e uma agricultura altamente mecanizada e dependente em produtos químicos. Em oposição, um modelo que preza os direitos indígenas e busca uma compreensão melhor da relação homem/natureza, subjugando os interesses individuais a uma reflexão sobre as necessidades do coletivo, a qual passa pelo respeito ao meio-ambiente, reconhecendo o caráter essencial e insubstituível dos serviços ambientais.

O modelo industrial tem sido empurrado para os povos indígenas de Roraima como solução para uma série de problemas, a partir de projetos, doação de maquinários, etc., num nítido esforço para substituir a agricultura tradicional com algo mais “moderno”. Ignora-se que a agricultura tradicional tem sido a base da sustentação dos povos indígena há milênios, e que sua substituição e perda acarretarão, não uma nova era de prosperidade, mas sim, o aprofundamento dos problemas alimentares, nutricionais, e sociais.

A Escola do Surumu entra nesta história justamente porque busca um modelo alternativo ao desenvolvimento agrícola convencional, procurando manter a introdução de novas tecnologias e práticas sempre em sintonia com as necessidades e capacidades das comunidades, e respeitando sua agricultura tradicional. Além de buscar um modelo agrícola mais sustentável, sem a dependência de produtos químicos e agrotóxicos, a Escola do Surumu tem como proposta o constante processo de discussão, reavaliação e reformulação junto às lideranças das comunidades indígenas ligadas ao CIR. Os alunos, escolhidos coletivamente pelas aldeias para se formarem na escola, assumem o compromisso de dedicar sua futura atuação profissional a um retorno para as aldeias de origem e/ou para a organização indígena.

Não é de estranhar, em vista desta filosofia, que a Escola do Surumu tenha atraído a ira dos que são contra a homologação da Terra Indígena, e contra o fortalecimento da auto-gestão e dignidade dos povos indígenas de Roraima. Mas, a prova de que a Escola está trilhando o caminho certo será o esforço de fazer a sua reconstrução, mostrando que a violência não é arma suficiente para acabar com o movimento de respeito aos direitos humanos e ao meio-ambiente.


Estamos lançando a CAMPANHA PARA RECONSTRUÇÃO DA ESCOLA DO SURUMU. Quem puder contribuir com dinheiro, ótimo. Quem não tiver dinheiro sobrando, poderá também contribuir, doando livros (não só técnicos!), materiais, mão-de-obra, auxílio técnico, tempo, e solidariedade.