Carta
de Maturuca
Nós,
povos indígenas, trabalhadoras e trabalhadores urbanos
e rurais do estado de Roraima, insatisfeitos com a exclusão
social à qual somos submetidos há décadas
e preocupados com o distanciamento que sempre tivemos, sobretudo
por influência da classe política, empresarial
e latifundiária, resolvemos refletir juntos sobre
as nossas realidades no 1° Intercâmbio de Solidariedade,
promovido pela Campanha Nós Existimos, realizado
na aldeia de Maturuca, na Terra Indígena Raposa Serra
do Sol, nos dias 3, 4 e 5 de março de 2003.
Considerando a diversidade a qual estamos vivenciando nos
diferentes espaços onde vivemos e a falta de comprometimento
dos representantes constituídos nos poderes públicos
que apresentam sucessivos projetos de desenvolvimento que
não colocam em primeiro lugar o ser humano e o meio
ambiente, vimos firmar nosso compromisso e decisão
de buscar solidariamente soluções conjuntas
para os nossos problemas e desafios, tais como: negação
dos direitos dos povos indígenas, sobretudo os direitos
a terra, em especial Raposa Serra do Sol, aonde vem ocorrendo
violências e assassinatos por parte dos invasores
da área; incentivo à permanência dos
invasores das terras indígenas por parte do Estado
de Roraima, entre eles, arrozeiros, fazendeiros, vilas,
unidades militares e unidades de conservação;
abandono dos trabalhadores rurais na vicinal, sem ou com
limitado acesso às estradas, escolas, postos de saúde,
eletrificação ou crédito para a produção;
falta de titulação das terras ocupadas pelos
agricultores; desigualdade de oportunidades no acesso ao
crédito, muitas vezes direcionado aos grandes produtores,
favorecendo o latifundiários plantadores de acácia,
soja e arroz irrigado, em detrimento da agricultura familiar;
descaso quanto à prestação de serviços
de saúde e educação de qualidade para
todos no campo e na cidade; a falta de oportunidades de
trabalho para quem vive nas cidades; má utilização
dos recursos públicos ou desvio de verbas através
da corrupção, gerando dependência e
enriquecimento ilícito de políticos, entre
outros;
Essas constatações nos fazem tomar a decisão
de construir uma grande aliança de propósitos
e ações entre agricultores familiares, indígenas
e trabalhadores da cidade, visando reverter esta dura realidade
de exclusão social, violência e impunidade
à qual estamos submetidos, na perspectiva de construirmos
e sensibilizarmos os governantes para a definição
de um modelo de desenvolvimento sustentável que não
agrida a dignidade dos povos indígenas e dos trabalhadores
do campo e da cidade, nem ao meio ambiente. Assim, nos organizando
numa grande mobilização solicitamos apoio
de autoridades e organismos locais, nacionais e internacionais
para as seguintes reivindicações: homologação
da terra indígena Raposa Serra do Sol em área
contínua; retirada de todos os invasores das terras
indígenas; fiscalização da terra e
respeito às culturas ancestrais; aprovação
do novo Estatuto dos Povos Indígenas e não-aprovação
do projeto de mineração em terras indígenas;
justiça com punição exemplar aos crimes
e desmandos históricos ocorridos no Estado; não
aos incentivos fiscais aos latifundiários plantadores
de arroz, acácia mangium e soja, e mais investimentos
em crédito, infra-estrutura básica à
produção para a agricultura familiar; não
aos incentivos para a instalação de uma fábrica
de pasta base de celulose em Boa Vista devido aos elevado
custo ambiental; geração de mais e melhores
empregos para quem vive na cidade; mais respeito e igualdade
no trato das instituições federais e estaduais
com os excluídos da sociedade; combate à corrupção
em todos os níveis com urgente punição
aos envolvidos na “lista dos gafanhotos”.
Saímos deste encontro com a firme decisão
e compromisso com a transformação destas realidades.
Aldeia
de Maturuca – RR, 05 de março de 2003.