Ser Bispo em Roraima
Por Dom Apparecido José Dias
 

Fui Bispo 21 anos em uma pobre Diocese rural de São Paulo. Cheguei a Roraima em setembro de 1996. Muita coisa mudou em minha vida de bispo, devido à realidade existente neste estado, onde a população é, majoritariamente, de migrantes. Além das funções normais de bispo, de pregar a palavra de Deus, administrar sacramentos, dirigir a Diocese, a gente deve empenhar-se à causa indígena, à causa dos agricultores e à difícil tarefa de implantar uma pastoral mais adaptada à cidade de Boa Vista.

Gostaria, neste curto espaço, de dar ênfase às questões indígenas, rurais e da periferia de Boa Vista.

A questão indígena exige uma atenção toda especial por causa das grandes tensões geradas entre a diocese e sociedade local, por causa do trabalho desta com os índios e dos princípios adotados em relação a eles.

Os ataques contra a Igreja são constantes na mídia e por toda parte: na Assembléia Legislativa do Estado, na Câmara dos Vereadores e em outras instâncias. A gente precisa se defender e o fazemos em geral na justiça. Também os índios precisam de apoio para a sua defesa. É um trabalho muito desgastante, tanto para os missionários como para o Bispo.

O Bispo deve estar sempre acompanhando a luta dos missionários e missionárias nas áreas de saúde, educação, auto-sustentação. Tudo com um grande respeito à cultura de cada povo indígena para não prejudicar a ninguém. Tendo sempre em mente a palavra de Jesus que disse: “Eu vim para que todos tenham vida em abundância” (Jô 10,10). Sem esquecer o trabalho diretamente religioso entre os índios cristãos.

Outra pastoral de fronteira, que acompanho com muito carinho é a Pastoral da Terra. Aí temos milhares de camponeses em situação de grande pobreza, atingidos pela falta de recursos que existem, sim, mas que são embolsados por funcionários e políticos corruptos. Neste campo existem conflitos com os que não querem deixar os pobres se organizarem e viverem com liberdade, dignidade e independência. Entendo que a minha função, no caso, é de servir não apenas como ponto de referência, mas ajudar em tudo que for necessário, apoiar e prestigiar as suas lutas. Estar sempre junto com os missionários no seu trabalho de organização do povo, nas emergências (fazendo campanhas), nos conflitos, na solução dos problemas de produção agrícola, de transporte e de comercialização.

A periferia de Boa Vista é um campo onde se encontra muita miséria, desemprego, doenças, drogas, violência e falta de iniciativas populares. O Centro de Defesa dos Direitos Humanos tem um trabalho bonito com associações de mulheres, de agricultores urbanos (produção de verduras) e atividades de produção de renda. A animação deste setor exige reuniões, escutar os agentes da pastoral, ajudá-los em todos os sentidos. Um dos trabalhos mais árduos e que exige uma paciência infinita é a educação para a cidadania.

Concluindo, direi que a missão do Bispo é a da evangelização integral, não apenas pela palavra, mas e principalmente, pelo testemunho de uma opção por Jesus Cristo e pelos pobres. Com isto, me sinto feliz e realizado embora saiba que ainda devo caminhar e melhorar muito.

Nota: Dom Apparecido José Dias, Bispo de Roraima, faleceu no dia 29 de maio de 2004. Não deixou testamento. Mas, entre seus escritos, encontramos o perfil que traçou de si mesmo e dos desafios que enfrentou nesta região. É um documento precioso que desejamos partilhar com os amigos de Dom Apparecido e com todos aqueles que acompanham com preces e solidariedade a caminhada da pobre, perseguida e pascal Igreja de Roraima.


Pe. Edson Damian, Administrador Diocesano