| Fui
Bispo 21 anos em uma pobre Diocese rural de São Paulo.
Cheguei a Roraima em setembro de 1996. Muita coisa mudou em
minha vida de bispo, devido à realidade existente neste
estado, onde a população é, majoritariamente,
de migrantes. Além das funções normais
de bispo, de pregar a palavra de Deus, administrar sacramentos,
dirigir a Diocese, a gente deve empenhar-se à causa indígena,
à causa dos agricultores e à difícil tarefa
de implantar uma pastoral mais adaptada à cidade de Boa
Vista.
Gostaria, neste curto espaço, de dar ênfase às
questões indígenas, rurais e da periferia de Boa
Vista.
A questão indígena exige uma atenção
toda especial por causa das grandes tensões geradas entre
a diocese e sociedade local, por causa do trabalho desta com
os índios e dos princípios adotados em relação
a eles.
Os ataques contra a Igreja são constantes na mídia
e por toda parte: na Assembléia Legislativa do Estado,
na Câmara dos Vereadores e em outras instâncias.
A gente precisa se defender e o fazemos em geral na justiça.
Também os índios precisam de apoio para a sua
defesa. É um trabalho muito desgastante, tanto para os
missionários como para o Bispo.
O Bispo deve estar sempre acompanhando a luta dos missionários
e missionárias nas áreas de saúde, educação,
auto-sustentação. Tudo com um grande respeito
à cultura de cada povo indígena para não
prejudicar a ninguém. Tendo sempre em mente a palavra
de Jesus que disse: “Eu vim para que todos tenham vida
em abundância” (Jô 10,10). Sem esquecer o
trabalho diretamente religioso entre os índios cristãos.
Outra pastoral de fronteira, que acompanho com muito carinho
é a Pastoral da Terra. Aí temos milhares de camponeses
em situação de grande pobreza, atingidos pela
falta de recursos que existem, sim, mas que são embolsados
por funcionários e políticos corruptos. Neste
campo existem conflitos com os que não querem deixar
os pobres se organizarem e viverem com liberdade, dignidade
e independência. Entendo que a minha função,
no caso, é de servir não apenas como ponto de
referência, mas ajudar em tudo que for necessário,
apoiar e prestigiar as suas lutas. Estar sempre junto com os
missionários no seu trabalho de organização
do povo, nas emergências (fazendo campanhas), nos conflitos,
na solução dos problemas de produção
agrícola, de transporte e de comercialização.
A periferia de Boa Vista é um campo onde se encontra
muita miséria, desemprego, doenças, drogas, violência
e falta de iniciativas populares. O Centro de Defesa dos Direitos
Humanos tem um trabalho bonito com associações
de mulheres, de agricultores urbanos (produção
de verduras) e atividades de produção de renda.
A animação deste setor exige reuniões,
escutar os agentes da pastoral, ajudá-los em todos os
sentidos. Um dos trabalhos mais árduos e que exige uma
paciência infinita é a educação para
a cidadania.
Concluindo, direi que a missão do Bispo é a da
evangelização integral, não apenas pela
palavra, mas e principalmente, pelo testemunho de uma opção
por Jesus Cristo e pelos pobres. Com isto, me sinto feliz e
realizado embora saiba que ainda devo caminhar e melhorar muito.
Nota:
Dom Apparecido José Dias, Bispo de Roraima, faleceu no
dia 29 de maio de 2004. Não deixou testamento. Mas, entre
seus escritos, encontramos o perfil que traçou de si
mesmo e dos desafios que enfrentou nesta região. É
um documento precioso que desejamos partilhar com os amigos
de Dom Apparecido e com todos aqueles que acompanham com preces
e solidariedade a caminhada da pobre, perseguida e pascal Igreja
de Roraima.
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