O nó da questão fundiária
Jessé Souza*

Não sei se alguém já atentou para o fato de por que os políticos roraimenses nunca terem decidido, tempos atrás, resolver a questão fundiária. O estado de Roraima foi criado a partir da promulgação da Constituição de 1988, mas desde lá o assunto vem sendo empurrado com a barriga.

Mas, por que um tema de tal relevância para o desenvolvimento do estado nunca foi levado a sério? Antes de dar uma luz sobre este questionamento, convido o leitor a pegar qualquer estrada que sai da cidade, seja uma rodovia federal ou estadual. Assim que termina a cidade vamos começar a ver inúmeras terras cercadas por arames farpados. Em alguns casos, para ver o começo da propriedade e o fim é preciso que o veículo percorra alguns minutos a 80 km por hora. A maioria dessas propriedades está servindo apenas para especular ou para pasto de gado.

Em um levantamento mais criterioso, pegando um mapa e dados do próprio Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), vamos ver outras imensas terras, em vários municípios do interior, em mãos de alguns poucos. É a concentração de imensas glebas enquanto pequenos produtores comem o pão que diabo amassou.

Apesar dos nomes desses proprietários nunca terem sido divulgados para a opinião pública, sabemos que eles são parlamentares, empresários, altos funcionários públicos, militares e até mesmo alguns magistrados. Ou seja, aqueles que criaram o discurso de “pouco índio para muita terra” são os latifundiários que concentram boa parte das terras em seu poder.

Os parlamentares são os campeões em concentração de terras, boa parte delas grilada do Estado ou comprada das mãos de pequenos produtores, os quais foram obrigados a abandonar seus lotes de reforma agrária ou tentados a venderem a um preço baixo, mas que os livram do abandono nas vicinais mais inóspitas.

Se os próprios políticos são os latifundiários, os grileiros e os exploradores do mercado imobiliário rural, então está aqui a resposta: jamais eles iriam querer uma regularização fundiária, pois eles teriam (e terão) que perder boa parte de suas propriedades.

Para desviar o foco das atenções eles atacam a questão indígena e a homologação das reservas. Afinal, é preciso encontrar um culpado para a indefinição fundiária. Esse culpado eles elegeram: as populações indígenas. Desinformada, a população acaba acreditando nos discursos deles e criando um preconceito e uma visão errada sobre os índios e a questão indígena.

Regularizar a questão fundiária em Roraima significa retirar terras griladas da União pelos políticos, empresários e outros poderosos locais. Definir quais são as terras da União e do Estado significa retirar a cortina de ferro que revelará quem são os verdadeiros latifundiários em Roraima.

Por isso, a definição fundiária nunca foi uma prioridade para os políticos e outras autoridades locais. Porque o mandato de boa parte dos parlamentares serviu para acumular terras griladas ou adquiridas de forma obscura, como forma de especular ou acumular mais bens.
Antes de atacar as comunidades indígenas como culpadas por tudo que é de ruim nesse Estado, pense primeiro quem são os maiores detentores de fazendas, lotes e imóveis rurais e urbanos: os mesmos que não têm interesse em regularizar a questão fundiária em Roraima.