Durante
três décadas, as populações indígenas
concentraram todos os seus esforços na luta pela
demarcação e homologação da
Terra Indígena Raposa/Serra Sol. Hoje a reserva está
homologada e o desafio agora é como manter a região
auto-sustentável para que as futuras gerações
possam ter garantia de sobrevivência e autonomia.
Este desafio vem sendo trabalhado há alguns anos,
a 200 quilômetros de Boa Vista, na região de
Surumu, no Centro Indígena de Formação
e Cultura Raposa/Serra do Sol, mantido pelo Instituto Missionários
da Consolata. Pelo nome oficial batizado em 2003 quase ninguém
o conhece. Mas é bastante reconhecido pelo seu nome
tradicional: “Escola Surumu”.
Lá funciona uma escola profissionalizante de Ensino
Médio na área de agropecuária e manejo.
Não é uma entidade para formar indígenas
para o agronegócio nem tem a finalidade de tornar
as comunidades indígenas grandes produtoras, para
transformar a reserva indígena em um latifúndio.
O curso respeita as tradições indígenas
e tem a meta de formar técnicos capazes de multiplicar
conhecimentos na agricultura e pecuária, visando
conseguir a auto-sustentação das comunidades
e autonomia territorial, sem esquecer as tradições,
cultura e crenças.
Os técnicos em agropecuária aprendem a trabalhar
com a agricultura orgânica e, no fim do curso de 4
anos, são capazes de ajudar na recuperação
de áreas degradadas, levantamento de recursos naturais,
manejo de criação animal e plantio, melhoria
de roças e hortas comunitárias.
Os novos profissionais se tornam multiplicadores de conhecimento,
capacitando os demais membros das comunidades a melhorar
o manejo do gado, estruturas agropecuárias, hortas
escolares e piscicultura – este último um projeto
que está sendo incentivado para que se torne uma
atividade de ponta.
Para que alcance suas metas, a escola agrotécnica
tem regras peculiares de uma entidade voltada à realidade
das populações indígenas. A principal
delas é que a própria comunidade indica quem
são os alunos a serem enviados para estudar em Surumu.
Os escolhidos sabem que terão de dedicar quatro anos
de suas vidas a uma formação que será
útil para a sobrevivência da comunidade e ao
desenvolvimento de suas culturas tradicionais, aliados às
novas tecnologias e aos conhecimentos que um curso técnico
proporciona.
A cada dois meses, uma turma fica em regime de internato
na Escola Surumu, enquanto outra turma vai para a comunidade
passar dois meses em aula prática, onde tem a oportunidade
de compartilhar seus conhecimentos com a aldeia. Esse sistema
de rodízio permite que a escola funcione integralmente
todos os meses do ano, sem recesso.
Desde que foi implantada a escola, nunca houve uma desistência.
São 38 indígenas matriculados, dos quais 15
já se formaram recentemente. Desses 15, cinco estão
trabalhando em elaboração ou coordenando projetos
no CIR (Conselho Indígena de Roraima).
“São dez técnicos formados vivendo na
comunidade, trabalhando na produção e capacitação.
Todos estão ligados à questão da terra
e alguns cursando universidade”, afirmou Luis Ventura
Fernandez, que ao lado de Ester Tello, ambos espanhóis,
são dois dos coordenadores da Escola Surumu.
Eles explicam que a escola forma os índios com visão
de marcado completamente voltada para o espírito
comunitário. “Os alunos estudam com o compromisso
de voltar à comunidade”, reforçou Ester,
ao ressaltar o sucesso da metodologia aplicada aliando conhecimentos
tradicionais e técnicas de ensino profissionalizante.
Escola
será repassada para o Conselho Indígena de
Roraima
Apesar
da Escola Surumu ter dois espanhóis na equipe de
coordenadores – Luiz Ventura Fernandez e Ester Tello,
as lideranças indígenas são maioria
tanto na coordenação quanto no Conselho Diretivo.
Dos cinco coordenadores, três são indígenas.
No Conselho Diretivo o número também é
expressivo: dos 23 conselheiros, 16 são lideranças
indígenas com as mesmas responsabilidades e atribuições
dos conselheiros não-índios. “A escola
está nas mãos dos índios”, frisou
Fernandez.
Apesar da já estar nas mãos das lideranças
da Terra Indígena Raposa/Serra do Sol, o comando
da entidade pelos índios deverá ser oficializado
em breve. É que o Centro Indígena de Formação
e Cultura Raposa/Serra do Sol será repassado ao Conselho
Indígena de Roraima (CIR). O processo de transferência
está caminhando a passos largos.
Coincidência ou não, o Conselho Estadual de
Educação reconheceu o curso profissionalizante
da Escola Surumu no dia 19 de abril passado, Dia do Índio.
Agora, o processo de homologação está
tramitando na Secretaria Estadual de Educação.
Foi o passo decisivo e legal para a efetivação
do curso de Ensino Médio Profissionalizante na reserva
indígena.
A transferência do Centro para o CIR é mais
uma decisão que irá permitir aos índios
serem donos de seu próprio destino. Afinal, todos
os planos de trabalho e auto-sustentação da
Raposa/Serra do Sol passam pela Escola de Surumu, como pólo
de formação e capacitação. Outros
cursos estão sendo estudados para serem efetivados
na escola.
Novos
cursos serão abertos a fim de garantir a autonomia
Um dos
discursos mais repetidos por políticos e entidades
empresariais que se posicionam abertamente contra a Raposa/Serra
do Sol é que Terra Indígena irá ficar
isolada, os índios sem assistência e sem condições
de produzir o próprio alimento.
Por isso, a luta das lideranças agora está
direciona para criar cursos de formação profissional
e técnica, visando à autonomia dos povos indígenas
que vivem na TI de 1,7 milhão de hectares, área
necessária para sobrevivência e reprodução
das famílias para o futuro.
Na Escola Surumu, o objetivo é fazer com que as comunidades
garantam formação que possibilitem a autonomia
das comunidades. No caso do curso técnico em agropecuária,
nada impede que, no futuro, o excedente possa abastecer
o mercado roraimense.
“Os índios têm a visão da terra
como mãe. Para eles, a terra não se explora,
mas se trabalha e se respeita a vida”, disse o coordenador
Ventura Fernandez. Por isso, há uma conjugação
do conhecimento tradicional em equilíbrio com novas
técnicas.
MAIS CURSOS – Há planos de
no futuro bem próximo montar na Escola Surumu novos
cursos de formação em diversas áreas,
como mecânica e auxiliar de enfermagem. A meta é
atender as necessidades mais urgentes das comunidades nas
áreas onde enfrentam dificuldades para manterem sua
autonomia dentro da Terra Indígena.
O curso de mecânica está previsto para ser
instalado em agosto próximo, com ajuda do Senai (Serviço
Nacional da Indústria), que pode enviar instrutores.
Já o de auxiliar de enfermagem há um entendimento
com a Funasa (Fundação Nacional de Saúde)
para que direcione verba. O curso depende da aprovação
do Cefet (Centro Federal de Educação Tecnológica),
com quem também há uma conversação.
Outro projeto a ser implantado em breve é o Centro
de Produção Audiovisual, que possibilitará
às comunidades indígenas uma nova visão
no mundo da mídia. No mês passado, os alunos
da escola participaram de um curso sobre comunicação.
Para instalar este Centro, os entendimentos estão
sendo mantidos com o MEC (Ministério da Educação)
que deverá legalizá-lo em breve, segundo informaram
os coordenadores.
Escola
Surumu tem importância histórica para povos
indígenas
A Escola
Surumu fica dentro dos limites da Terra Indígena
Raposa/Serra do Sol. Aquele local tem uma importância
histórica na caminhada dos índios na luta
pela demarcação da reserva, conforme lembra
Luis Ventura Fernandez. “Foi lá que as lideranças
indígenas começaram a se organizar”,
frisou.
Por isso, a Escola Surumu sempre foi alvo de ameaças
e até de ataques de forças políticas
e econômicas contrárias à homologação
da reserva. Na escola ocorreu, no ano passado, o seqüestro
de dois missionários, em ação liderada
pelos arrozeiros contra a homologação da TI.
Fernandez disse que a homologação não
significou o aumento da pressão e ameaça em
Surumu. “A pressão já existia, por parte
do poder econômico. Com a homologação,
isso nem diminuiu nem aumentou”, frisou Fernandez.
Mas ele lembra que as ameaças e a iminência
de um novo ataque não abalam coordenadores, conselheiros
nem muito menos os alunos. “Sempre foi muito tranqüilo
lá dentro. Nenhum só dia as aulas pararam
por causa das ameaças”, lembrou.
As constantes investidas contra a Escola Surumu, segundo
Fernandez, tornaram os alunos mais conscientes da luta pela
autonomia dos povos indígenas. “Ninguém
desistiu do curso. Pelo contrário, ficaram mais comprometidos
com a luta”, frisou.