A conclusão
do processo demarcatório da Terra Indígena
Raposa Serra do Sol, habitada pelos povos Macuxi, Ingarikó,
Wapixana, Taurepang e Patamona sofre com a pressão
de grupos econômicos e políticos do estado
de Roraima, que usam todas as formas de mentiras para convencer
a Presidência da República a não homologar
a referida terra. A mentira sempre foi arma do opressor.
Quando dita várias vezes, uma mentira pode até
se tornar verdade. Para que isto não aconteça,
as comunidades indígenas de Roraima e os seus aliados,
em todas as partes do Brasil e do Mundo, buscam a todo custo
esclarecer todos os aspectos que envolvem a realidade dos
povos de Raposa Serra do Sol, em especial sobre a homologação
da terra.
Localização:
Raposa Serra do Sol situa-se no nordeste do estado de Roraima,
entre os rios Tacutu, Maú, Surumu, Miang e a fronteira
com a Venezuela. Tem superfície de 1.678.800 hectares,
demarcada pelo Ministério da Justiça, através
da Portaria Nº 820/98. Mais da metade da área
é constituida por cerrados (savanas), denominadas
regionalmente de “lavrados”. A porção
montanhosa culmina com o Monte Roraima, em cujo topo se
encontra a fronteira internacional dos três paises:
Brasil, Guiana e Venezuela.
População:
Os povos Makuxi, Wapixana, Taurepang, Patamona e Ingarikó,
que habitam a Raposa Serra do Sol somam aproximadamente
15.719 índios, espalhados em 152 aldeias, com população
que pode variar entre 50 a 800 pessoas. A população
está assim distribuída: região da Serras,
7.319; Surumu, 2.127; Baixo Cotingo, 2.128; e, Raposa, 3.145.
Municípios:
Raposa Serra do Sol situa-se administrativamente nos municípios
de Normandia, Uiramutã e parte de Pacaraima. Dada
a tradicionalidade da presença indígena na
região, o mais correto seria dizer que os três
municípios incidem sobre a terra indígena.
Normandia foi instalado em 1982, e, Uiramutã e Pacaraima,
em 1997. Merece uma análise especial a presença
dessas três unidades da federação dentro
da área indígena: a criação
de Normandia passou minimamente por um discussão
com as comunidades, que através de um acordo, aceitaram
excluir da Raposa Serra do Sol a sede municipal. Pacaraima
foi criado ilegalmente com a sede dentro da TI São
Marcos quando esta já estava homologada há
quatro anos, desde 1991. Uiramutã, originalmente
aldeia, tornou-se “corrutela” de apoio à
garimpagem e depois município quando a Raposa Serra
do Sol estava na fase conclusiva do processo de identificação.
Uma Ação Judicial, atualmente no Supremo Tribunal
Federal, contesta a instalação de Pacaraima
e Uiramutã.
Corrutelas:
Cinco vilarejos, denominados pelos indígenas de corrutela
estão dentro da Raposa Serra do Sol: Surumu, Água
Fria, Mutum, Socó e Uiramutã. Todos foram
formados para abastecer os garimpos que existiam na região.
Com a decadência do garimpo nos anos 1990, essas aglomerações
esvaziaram-se ficando somente pessoas que desenvolviam alguma
atividade governamental, como professores, agentes de saúde,
membros da administração local, etc. É
insignificante o número de habitantes das corrutelas:
em Surumu têm morada fixa apenas 118 não-índios;
em Mutum, cerca de 250 (a maioria garimpeiros que trabalham
na Guiana); Uiramutã, cerca de 115 não-índios;
Água Fria, 36 famílias de não-índios
e Socó, cerca de 50 invasores.
Sustentabilidade:
Comunidades indígenas não querem o isolamento,
muito pelo contrário, sempre buscam formas alternativas
para melhorar a produção sem prejuízo
à cultura nem ao meio ambiente. Um exemplo disso
é atuação de 251 professores indígenas
na Raposa Serra do Sol, 113 escolas de ensino fundamental
e três de ensino médio. Os indígenas
de Raposa Serra do Sol são criadores de gado e atualmente
manejam o rebanho surpreendente de 27 mil bovinos, que constitui
principal fonte de segurança alimentar das comunidades.
Outra prova inconteste da disposição indígena
de promover desenvolvimento sustentável da região
é presença da Escola Agropecuária de
Surumu que forma técnicos em nível médio
profissionalizante para todo o estado. Na área de
saúde, as comunidades são parceiras do Estado
Brasileiro, por exemplo, o Conselho Indígena de Roraima,
através de convênio com Fundação
Nacional de Saúde. A rede básica de assistência
tem sua eficácia garantida, devido ao engajamento
de 438 Agentes Indígenas de Saúde, 100 Microscopistas
Indígenas, que atuam em 29 pólos-base, 187
postos de saúde e 62 laboratórios. O programa
de saúde promove a medicina tradicional indígena.
Forças Armadas: A presença
das Forças Armadas na região é bastante
intensa. Nos três municípios existem bases
militares do Exército Brasileiro: 3º Pelotão
Especial de Fronteira em Pacaraima, 6º PEF de Uiramutã
e um Batalhão de Fronteira em Normandia. Vale destacar
que os índios de Roraima foram fundamentais para
a garantir os limites da fronteira do Brasil. Joaquim Nabuco,
num litígio entre Brasil e Inglaterra no começo
o século, argumentou que aquelas terras pertenciam
ao Brasil porque os índios falavam português
e eram “aliados” da Coroa Portuguesa. A segurança
da fronteira estará plenamente garantida se as Forças
Armadas passarem a olhar os índios como confiáveis
para a Segurança Nacional como sugere o Programa
Calha Norte.
Arrozeiros:
Na faixa sul de Raposa Serra do Sol, sete rizicultores cultivam
uma área estimada de 6 mil hectares de lavouras irrigadas,
nas várzeas dos rios Cotingo, Surumu e Tacutu. São
invasores recém-chegados. Há menos de 10 anos
estão exercendo a atividade naquela região,
incentivados pelo governo estadual, que subsidia o calcário,
principal insumo para a produção. As comunidades
indígenas próximas aos arrozais já
fizeram mais de uma centena de denúncias de degradação
ambiental e de uso indiscriminado de agrotóxicos
nas lavouras que poluem os igarapés e os rios, causando
sérios problemas de saúde aos índios.
Mesmo sabendo do problema, as autoridades federais jamais
tomaram qualquer providência. Os arrozeiros se tornaram
a principal força de resistência à Raposa
Serra do Sol. Um detalhe importante é que todos têm
propriedades fora da terra indígena e alguns já
cultivam arroz nestas áreas.
Posseiros:
Segundo um levantamento da Funai, existem no interior da
Raposa Serra do Sol apenas 69 posseiros, sendo que 30 casos
estão em processo de indenização e
39 aguardam o cálculo do valor das benfeitorias.
Os ocupantes não-índios, incluindo todos os
moradores das corrutelas, somam 657 pessoas. Portanto, o
suposto problema social decorrente da homologação
é de fácil solução, a exemplo
do fato de 37 ocupantes terem sido indenizados pela Funai,
em 2002, e terem desocupado a terra pacificamente até
janeiro de 2003. Nessas posses indenizadas, as comunidades
estão ocupando com seus projetos alternativos, inclusive
formando outras comunidades.
Cooptação:
Uma das estratégias mais sórdidas usada pelos
grupos interessados em explorar a terra indígena
é a cooptação de lideranças.
Esse processo é intensificado a partir de 1995 no
Governo de Neudo Campos e segue até os atuais. Ex-governador
por dois mandatos, Neudo é acusado de ser o líder
de uma esquema de corrupção conhecido por
Folha Gafanhoto, que pode ter desviado dos cofres estaduais
mais de R$ 300 milhões, através de funcionários
fantasmas. Segundo reportagem recente da Folha de São
Paulo, indígenas contrários à homologação
da terra indígena Raposa Serra do Sol faziam parte
da folha de pagamento do estado. Mesmo assim, das 152 comunidades
existentes hoje, apenas 27 não são ligadas
ao CIR, entidade que historicamente lidera a luta pela homologação
em área contínua.
Omissão: A omissão do Estado
Brasileiro só faz aumentar os conflitos em Roraima.
Em janeiro deste ano, plantadores de arroz, fazendeiros
e empresários locais lideraram atos violentos numa
campanha de terror contra a homologação da
Raposa Serra do Sol que culminou com o seqüestro de
três missionários, bloqueio de estradas, invasão
da Funai (Fundação Nacional do Índio)
e chamamento à sociedade local para uma reação
contra os direitos indígenas. A classe política
de Roraima, notadamente antiindígena, mantém
ligações próximas com interesses de
mineradoras, latifundiários e empresários
que patrocinam uma atmosfera de preconceito e discriminação
contra os índios e os seus aliados.
Impasses
burocráticos: Há quase um século
é sabido pelo Estado da presença indígena
na Raposa Serra do Sol. O primeiro ato administrativo de
demarcação do território macuxi data
de 16 de outubro de 1917, através da Lei Estadual
n. 941/1917 do Estado do Amazonas, que delimitava a faixa
de terras entre os rios Cotingo e Surumu para a ocupação
e usufruto dos índios da região. Em 1919 o
SPI (Serviço de Proteção ao Índio)
chegou a iniciar a demarcação física
da área, mas sem efeitos concretos, pois as terras
continuaram sendo invadidas por fazendeiros. De 1919 a 1977
nada foi feito para efetivar a demarcação
da terra. Só em março de 1977 o processo seria
reiniciado e, em 1993, concluído. Com o advento do
Decreto 1775/96 grupos interessados em explorar economicamente
a área, inclusive os arrozeiros, contestaram a demarcação,
mas todos os recursos foram julgados improcedentes. Após
a edição da Portaria 820/98, três advogados
ingressaram com uma Ação Popular, solicitando
Mandato de Segurança suspendendo os efeitos do ato
ministerial. Em 27 de novembro de 1999, o STJ extinguiu
a Ação sem julgamento do mérito. Quase
seis anos depois da assinatura da portaria declaratória,
o Juiz Helder Girão Barreto, da Justiça Federal
em Roraima, concedeu uma liminar suspendendo parcialmente
os seus efeitos, permitindo a presença dos invasores,
do município de Uiramutã e o livre acesso
de pessoas estranhas na terra indígena.
Conclusão:
O reconhecimento da terra indígena Raposa Serra do
Sol é o sonho dos povos Macuxi, Wapichana, Ingarikó,
Taurepang e Patamona há trinta anos. Esse processo
só não foi concluído por pressão
de grupos econômicos e políticos que têm
interesse em explorar a terra. Com a eleição
de Luis Inácio Lula da Silva à Presidência
da República, as comunidades indígenas depositaram
toda a esperança de que a homologação
seria breve, mas passados 14 meses o decreto ainda não
foi assinado. Pelo histórico de violência contra
os indígenas desta terra, está mais do que
comprovado que o retardamento do decreto presidencial só
faz alimentar as expectativas dos invasores da área,
fato que coloca em risco a integridade física e cultural
dos povos da região. É sabido também
que se a questão for tratada apenas do ponto de vista
político, os povos indígenas estarão
sempre em desvantagem. O que se pretende é que o
governo brasileiro enfrente o problema da perspectiva da
Justiça, do resgate de uma dívida histórica
que o Estado tem com os primeiros habitantes desta Nação,
incontestavelmente pluriétnica e pluricultural.
Abril
de 2004
Conselho
Indigenista Missionário
Conselho Indígena de Roraima
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