Avanço de lavouras de arroz sobre Terra Indígena e
uso de agrotóxicos provocam degradação ambiental


Jornal Viravolta – Boa Vista – Roraima - agosto 2004


 
O uso de agrotóxicos nas lavouras de arroz irrigado que têm avançado sistematicamente sobre a Terra Indígena Raposa Serra do Sol, está provocando a poluição dos rios e igarapés da região - principal fonte de vida das comunidades que ali vivem. O fato foi inúmeras vezes denunciado aos órgãos competentes não tendo qualquer resposta por parte das autoridades.


Preocupadas com a agressiva degradação ambiental causada pelos arrozeiros, as comunidades indígenas das regiões da Raposa, Serras, Baixo Cotingo e Surumu, iniciaram no dia 30 de junho a construção de uma nova comunidade na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, às margem do igarapé Jauari, a 180 quilômetros de Boa Vista. Esta decisão, firme e pacífica tem como objetivo impedir o avanço da degradação.

ARTIMANHA
Em represália, numa ação orquestrada, arrozeiros organizaram uma reação violenta incitando a população à desordem e ao conflito, o que culminou com o seqüestro de 2 funcionários da Funai.

Dias depois, estes arrozeiros denunciaram invasões a lavouras de sua propriedade, depredação de patrimônio, derrubada de cercas, ameaças e intimidações “praticadas por indígenas”. “Classes produtoras de Roraima” foram a público afirmar que os invasores eram patrocinados por ongs. Mais uma vez, jornais da cidade publicaram cada um dos factóides e senadores de Roraima levaram as manchetes produzidas às tribunas federais e ao Palácio do Planalto para, indignados, mostrarem ao Presidente ‘a realiade de Roriama”.

CAI A MÁSCARA
No dia 27 de julho de 2004, é publicado sem destaque num jornal local: “PF diz que não houve invasão indígena”. “Não foi constatada nenhuma invasão de terras por índios. Esta foi a iformação preliminar do delegado federal Eduardo Alexandre Fontes, chefe da Delegacia de Assuntos Institucionais (Delint)”.

Líderes sindicais, movimentos populares e ambientalistas apóiam Raposa Serra do Sol

André Vasconcelos - No dia 8 de julho, uma caravana organizada pelo Movimento Nós Existimos levando 63 lideranças sindicais, populares e ambientalistas de oito municípios do estado de Roraima visitou a TI Raposa Serra do Sol. Com o objetivo de fortalecer a aliança entre os povos indígenas e os trabalhadores rurais e urbanos de Roraima, a delegação levou seu apoio aos 200 indígenas da aldeia Novo Jauari, que está sendo erguida, com a colaboração de mais 260 parentes da aldeia São Francisco, com a intenção de conter o avanço das lavouras de arroz irrigado na terra indígena.

A experiência do diálogo entre índios, operários(as) urbanos e trabalhadores(as) rurais vem fortalecendo os três segmentos e unificando a luta pela terra e por outros direitos fundamentais.

O tuxaua Irineu Aniceto recepcionou a caravana pedindo que os ‘brancos’ entendessem o “jeito de viver” dos índios. “Somos diferentes das pessoas do dinheiro”, explicou.

João Carlos Martínez, coordenador do Movimento Nós Existimos, disse que a intenção da visita foi mostrar aos povos indígenas que eles não estão sós. “A luta de vocês pelos próprios direitos é um exemplo para todo o movimento social de Roraima. Vocês não estão sós, essa visita é para dizer isso”, afirmou.

Luiz Carlos Gomes, secretário executivo do Grupo de Trabalho Amazônico – GTA/RR, referendou o apoio dos trabalhadores rurais aos companheiros indígenas. “Estamos representando muitas e muitas outras pessoas, entidades e associações de todo estado de Roraima que também acreditam nessa luta, porque somos parte dela, seja aqui, no campo ou na cidade”.

Para Lúcia Glória Magalhães, presidenta da Central Única dos Trabalhadores - CUT/RR, é possível construir um caminho de paz para unificar a luta e enfrentar as agressões aos direitos indígenas e a destruição do meio ambiente.

O secretário geral do Grupo de Trabalho Amazônico - GTA, Adilson Vieira, ficou impressionado com o impacto ambiental causada pelas lavouras de arroz. “Será que tudo isso tem licença ambiental? Vamos mobilizar toda a rede GTA para cobrar uma fiscalização do Ministério do Meio Ambiente”, comprometeu-se.

O tuxaua Nelino Galé, lembrou que apesar das liminares da Justiça manterem a redução de Raposa Serra do Sol, os povos indígenas vão continuar ocupando a área com retiros e comunidades. “Aqui é a nossa terra, não queremos voltar a ser escravos. Aqui nós temos a nossa ‘liminar’. A liminar do índio é viver na terra. Levem essa notícia para os outros ‘brancos”, disse o líder macuxi.

Emocionado, o coordenador regional do Conselho Indígena de Roraima, Marinaldo Justino Trajano, disse que a visita dos trabalhadores rurais e urbanos à comunidade Novo Jauari “encoraja a luta dos povos indígenas da Raposa Serra do Sol”.

No trajeto de uma aldeia à outra, a caravana cruzou três lavouras de arroz irrigado instaladas na margem esquerda do rio Cotingo.