Um
dos argumentos constantemente levantados na discussão
sobre o desenvolvimento econômico de Roraima é
que a "imobilização" de grandes
áreas, principalmente através da demarcação
de terras indígenas, representaria o principal empecilho
ao desenvolvimento.
Cerca de 40 mil indígenas vivem em Roraima
A população
indígena em Roraima soma aproximadamente 40 mil pessoas.
A etnia mais numerosa, segundo dados do Instituto Socioambiental
é a macuxi (16.500). Também estão presentes
no estado os índios wapichana (6.500), ingarikó
(675), taurepang (532), patamona (50). E abaixo da linha
do Equador, na área de Floresta Amazônica,
vivem os wai wai (2.020, incluindo a população
do Pará e Amazonas), wamiri atroari (798, Roraima
e Amazonas) e, no sentido oeste, os Yanomami (11.700) e
Yekuana (462).
A maioria
dos indígenas vive nas aldeias preservando costumes,
crenças, tradições e organização
social própria. Porém, mesmo não existindo
um estudo específico, estima-se que mais de 10 mil
índios ou descendentes vivem em Boa Vista, capital
de Roraima, a maior parte em condições subumanas,
inclusive no lixão da cidade.
Em Raposa
Serra do Sol vivem os macuxi, wapichana, ingarikó,
patamona e taurepang, povos tradicionalmente seminômades,
caçadores e horticultores. A principal fonte de alimentação
destes povos é a mandioca, que serve para fazer farinha,
beiju e o caxiri / pajuarú, bebidas tradicionais.
Outro recurso importante para a segurança alimentar
é criação de gado bovino.
Efetivamente,
32 terras indígenas englobam 44% do Estado, sendo
quatro áreas contínuas: Yanomami, São
Marcos, Waimiri-Atroari e Raposa Serra do Sol. Várias
outras áreas pequenas estão demarcadas em
ilhas.
Umas
das fronteiras mais remotas de ocupação econômica
da Amazônia, Roraima se desenvolveu em ritmo lento
até a década de 70 - primeiro como parte do
Amazonas, e depois como Território Federal de Roraima.
A pecuária extensiva foi a principalmente atividade
econômica de Roraima durante décadas.
Diferentemente
do modelo adotado em outras regiões da Amazônia,
a pecuária em Roraima afetou apenas marginalmente
áreas de floresta, concentrando-se principalmente
na exploração dos campos abertos naturais
do lavrado, a savana amazônica local, que representa
cerca de 1/4 do território.
Nesta
fase, poderíamos, portanto, supor que o impacto ambiental
da atividade econômica tivesse permanecido relativamente
modesto, pelo menos em termos comparativos com outras áreas
da Amazônia onde a expansão da pecuária
se fez a custo de milhões de hectares de floresta.
Na realidade,
o verdadeiro impacto da expansão pecuária
nos lavrados de Roraima não pode ser entendido sem
o filtro histórico e cultural das relações
entre os brancos colonizadores e os índios locais,
habitantes originários dos lavrados.
Comunidade indígena de Roraima foi escravizada
A colonização
portuguesa dos sertões do Brasil, principalmente
do vale do Rio Branco, pode ser dividida em três fases:
escravização indígena, tentativa de
estabelecer instalações indígenas no
alto rio Branco e estabelecimento de instalações
não-índias.
No século
XVIII, os portugueses enviaram expedições
ao Rio Branco para capturar ou trocar escravos índios
pelas chamadas drogas dos sertões (salsaparrilha,
gengibre, castanha etc.), ferramentas ou armas. Mesmo os
holandeses tendo chegado primeiro, os portugueses conseguiram
a hegemonia com os índios.
O rio
Branco foi o principal alvo da colonização
portuguesa, que tinha a pretensão de ampliar as terras
conquistadas, extrapolando os limites preestabelecidos pelo
Tratado de Madri (1750). Ele era a porta de entrada para
a Amazônia. Para consolidar o domínio da região,
foi construído o forte de São Joaquim, no
ano de 1775, na confluência dos rios Tacutu e Uraricoera,
onde nasce o rio Branco.
O Marquês
de Pombal mandou parar com a escravização
indígena e obrigou o uso da língua portuguesa
em toda a região. O objetivo mais uma vez foi alargar
as fronteiras, estabelecendo relação amistosa
com os grupos indígenas, visando intensificar a presença
de não-índios.
As mudanças
impostas pelos portugueses no estilo de vida indígena
quase não foram aceitas. Os macuxi resistiram às
mudanças impostas ao longo de tempo. Seu primeiro
contato oficial com os portugueses ocorreu em 1784. Apenas
em 1789 os primeiros pequenos grupos de macuxi chegaram
às instalações, mas não ficaram
muito tempo.
A terceira
fase de colonização no vale do rio Branco
buscou introduzir o gado bovino. Embora o extrativismo florestal
ainda fosse a atividade econômica principal para todo
o século XIX, a criação de gado começou
a ganhar importância. Em 1787 chegaram a Roraima as
primeiras cabeças de gado.
As Fazendas
Nacionais, criadoras de gado de corte, foram fundadas para
prover a capitania de carne. O funcionamento efetivo das
Fazendas Nacionais São José, São Bento
e São Marcos não correspondeu às expectativas
governamentais. Em 1869, as Fazendas Nacionais diminuíram
para duas e fazendas privadas somariam mais de 80, em 1885.
Em Roraima,
a pecuária foi mais que uma atividade econômica.
Ela fez parte de uma geopolítica de ocupação
do território que compreende o Vale do rio Branco,
palco de disputa entre ingleses, espanhóis, holandeses
e portugueses até meados do século XIX. A
colonização de fato ocorreu pela "pata
do boi".
No começo
do século XX apenas São Marcos era ainda uma
Fazenda Nacional; as outras tinham sido ocupadas por fazendeiros,
que iam desenvolvendo rebanhos privados em terras públicas.
Em 1916,
a fazenda São Marcos foi entregue ao SPI (Serviço
de Proteção ao Índio), posteriormente
Funai (Fundação Nacional do Índio),
para ser administrada, embora o contato indígena
com o gado já tivesse acontecido. Alguns macuxi tinham
adquirido uma certa familiaridade com o gado trabalhando
para fazendeiros vizinhos. Naquele momento, a propriedade
privada da terra se tornou diretamente relacionada à
posse de gado: "o gado marcado era praticamente o único
critério para garantir a titulação
da terra".
Com
o declínio do ciclo da borracha no Amazonas, a pecuária
entra em declínio no vale do rio Branco e começa
emergir a atividade de mineração. O El Dorado
já era perseguido desde o século XVI por excursões
predominantemente formadas por estrangeiros.
Os primeiros
registros de minérios datam de 1912 às margens
do rio Urucá, um divisor entre Maú e Cotingo,
próximo à fronteira com a Guiana, onde hoje
está forjado o município de Uiramutã.
Posteriormente seriam localizados diamantes na Serra do
Tepequem, próxima aos Yanomami. O garimpo de Tepequem
tornar-se-ia um dos principais pontos de extração
diamantífera por várias décadas.
Os principais
focos de exploração no Estado foram os vales
do Maú, Quinô, Cotingo e o Tepequém.
A partir de 1980 ganhou incremento o garimpo de Santa Rosa,
na cordilheira Pacaraima, vindo a expandir-se para a área
Yanomami em diversas frentes: Uraricoera, Apiaú,
Mucajaí, Serra Couto Magalhães, Santa Rosa,
Palimiú, Erikó, Jundiá, Catrimani,
Paapiú, e Auaris.
A segunda
metade da década de 90 fica conhecida pela "corrida
ao ouro", devido o apogeu da garimpagem aurífera
no Estado, com a presença estimada de 40 mil garimpeiros
na área Yanomami. Com a sua homologação
em 1992, a atividade entrou em declínio.
Se o
impacto cultural sobre as sociedades indígenas foi
violento, o impacto ambiental não foi menor para
a sociedade indígena, pois com a expansão
das fazendas, os rebanhos e as cercas avançavam sobre
a terra como marcos tangíveis da posse dos brancos,
limitando drasticamente o acesso aos recursos naturais do
lavrado fundamentais para sua economia de subsistência.
A população
e a atividade econômica em Roraima cresceram rapidamente
com a corrida do ouro nos anos 80. Dezenas de milhares de
garimpeiros invadiram as terras indígenas em busca
de ouro e diamantes, gerando altíssimo impacto social
e ambiental para a população nativa e seu
meio ambiente.
Um exemplo,
entre outros, é a dispersão de mercúrio
na água, associada ao garimpo de ouro. O impacto
ecológico e sanitário desta atividade sobre
os rios da região e às populações
tradicionais com dieta a base de peixe, é ainda desconhecido,
por falta de estudos e avaliações científicas.
Casos de alta concentração de mercúrio
em humanos já foram detectados esporadicamente.
Entendido
a partir do contexto sociocultural, o maior impacto do "desenvolvimento"
sobre as florestas de Roraima não se deu na forma
visível do grande desmatamento, mas nas formas ambientalmente
menos visíveis das epidemias de gripe e malária.
Povos
inteiros quase foram dizimados como os Yanomami, ou os Waimiri-Atroari,
cujo território encontrava-se no caminho de um dos
"axés" do desenvolvimento traçados
pelos governos militares, a BR 174 que liga Manaus-Boa Vista-Venezuela.
Exploração predatória resultou em altos
custos sociais e ambientais
O que
resultou décadas de exploração desregulada
do rico potencial mineral do Estado ou de importantes investimentos
federais como a BR 174, além de seus altíssimos
custos sociais e ambientais nunca devidamente contabilizados?
Verificamos
na atualidade uma "economia de contra-cheque",
onde o maior empregador é a administração
pública, tanto na esfera federal quanto estadual.
O orçamento de Roraima depende em aproximadamente
95% de verbas federais.
Para
todos os efeitos, a capital econômica de Roraima é
Brasília, e a maior indústria local é
a política. O papel e o poder da política
na economia e na sociedade locais se destacam ainda mais
considerando que a grande maioria dos funcionários
da administração pública estadual não
é concursada, mas apenas nomeados ou de confiança.
O sistema
eleitoral brasileiro faz Roraima, com apenas 325.000 habitantes,
eleger o mesmo número de senadores que São
Paulo. Os deputados federais são oito. Esses parlamentares
eleitos com poucos milhares de eleitores, muitas vezes acabam
representando as agulhas da balança de alianças
que decidem os destinos do Brasil.
Muitos
dos grupos de poder político que hoje dominam o cenário
de Roraima construíram sua posição
atual sobre a exploração do garimpo, e mantêm
suas posições de renda controlando os fluxos
da atual economia do contra-cheque.
Será
verdade que em Roraima falta terra para o desenvolvimento?
Com 225.000 km2, o Estado tem uma densidade média
de menos de 1,5 hab/km2. Mesmo tirando as terras indígenas
do cálculo, a densidade média dobra, alcançando
3 hab/km2, dado elevado, e que na realidade não reflete
uma assimetria importante entre a capital, Boa Vista, onde
se concentra 70% da população do Estado, e
os demais municípios, com taxas bem abaixo de 1 hab/km2.
Na verdade,
argumentar a falta de desenvolvimento por falta de terra,
além de ser objetivamente falso, reflete a falta
de um projeto estratégico claro, de longo prazo,
fundamentado no conhecimento da realidade territorial e
socioambiental do Estado, e comprometido com a população,
na sua totalidade e diversidade.
Estado ainda é visto como "terra de conquista"
Roraima
até hoje é percebido como terra de conquista,
a ser explorada em suas riquezas da forma mais rentável
e rápida possível. Os projetos de desenvolvimento
hoje propostos em Roraima são fruto de uma concepção
na qual só pode haver desenvolvimento com a substituição
do natural pelo artificial, da diversidade pela monocultura,
da floresta e do lavrado por pastos e plantações
como arroz, soja, demais grãos ou acácias
e eucaliptos para polpa de celulose.
Esta
concepção gera conflitos ambientais e sociais.
Citaremos apenas dois exemplos: plantio de arroz irrigado
e acácia mangium. Para produzir arroz e
grãos em escala industrial e com técnicas
de altíssimo impacto ambiental se destrói
a biodiversidade nativa em grandes áreas, muitas
vezes invadindo terras indígenas. Rios e igarapés
são bombeados até secar para a irrigação,
e a pouca água que escoa retorna aos leitos carregada
de resíduos químicos e de agrotóxicos.
O impacto
sobre os recursos naturais indígenas é dramático
nas áreas próximas, mas não se limita
a estas: até os pescadores do baixo rio Branco, centenas
de quilômetros rio abaixo, se queixam da baixa do
pescado em conseqüência da poluição
das águas.
Plantios
de Acácia mangium e eucalipto estão ocupando
áreas crescentes dos lavrados roraimenses, muitas
vezes a poucos metros da fronteira de pequenas terras indígenas.
O impacto destas monoculturas arbóreas exóticas,
destinadas a alimentar uma fábrica de polpa de celulose,
planejada com incentivos do Governo do Estado, no delicado
ecossistema do lavrado é em grande parte desconhecido.
Sabe-se
que pelo menos 20% de uma área planejada inicialmente
para 30 mil hectares está plantada. Índios
wapichana e macuxi detectam os primeiros sinais de alarme.
Preocupados com o impacto das plantações intensivas
sobre o equilíbrio hidrológico do lavrado,
os índios denunciam a proliferação
de enxames de abelhas, favorecida pelas abundantes secreções
melíferas extraflorais das acácias.
Esses
enxames espalham-se nas áreas de fronteira com as
terras indígenas, dificultando atividades tradicionais
dos índios como a coleta de palha das palmeiras de
buriti, matéria-prima utilizada na confecção
dos tetos das casas e de artesanato.
Esta
concepção de desenvolvimento já fracassou
e pertence ao passado em outros Estados da Amazônia,
como Acre, Amapá e Amazonas, que investem hoje na
valorização da diversidade biológica,
étnica e sociocultural.
A especificidades
e vocações naturais dos ecossistemas locais
não podem ser entendidas plenamente sem o diálogo
aprofundado com as populações nativas, com
base no reconhecimento da diversidade e dignidade de seus
conhecimentos tradicionais ligados aos ambientes e à
biodiversidade locais.
Neste
contexto, o modelo de desenvolvimento proposto gera conflitos
socioambientais porque as demarcações de terras
indígenas são consideradas responsáveis
pela medíocre atividade econômica e por impedir
o desenvolvimento local.
A demarcação
e a homologação de Raposa Serra do Sol ocupa
um papel central nas questões políticas locais.
O Governo do Estado, políticos e grupos de interesses
dominantes estão conduzindo, em todas as esferas,
uma áspera luta contra o reconhecimento definitivo
(*) da área contínua. (* homologada pelo Presidente
Luiz Inácio Lula da Silva em 15 de abril de 2005).
A batalha
também inclui pressões políticas de
deputados federais e senadores do Estado sobre o Governo
Federal, assim como campanhas difamatórias na mídia
contra a Funai, as organizações indígenas
e seus apoios locais, nacionais e internacionais. Casos
de ameaças abertas e intimidações,
ou atos violentos contra indivíduos que apóiam
direta ou indiretamente "a causa indígena"
não são isolados na história recente
e no dia-a-dia de Roraima.
Economia indígena é exemplo de integração
com meio ambiente e auto-sustentabilidade
Fora
da economia e do "desenvolvimento" oficiais, medidos
pelos indicadores de mercado, há a economia indígena
e o etnodesenvolvimento. A economia indígena pode
ser considerada um exemplo historicamente vivo de auto-sustentabilidade
e integração com o meio ambiente, na medida
em que as populações indígenas sobreviveram
e se reproduziram historicamente segundo modelos próprios,
com baixa interação e integração
com a economia de mercado.
Regras
sociais e culturais, individuais e coletivas, que estruturam
as economias indígenas e os processos de etnodesenvolvimento,
contribuíram até hoje para a preservação
da qualidade ambiental e da biodiversidade, não só
nas terras indígenas, mas de toda a Amazônia,
da qual representam 20% do território, englobando
mais de 50% das florestas ainda em pé.
Os povos
e as terras indígenas de Roraima prestam serviços
ecológicos às demais áreas da Amazônia,
do Brasil e do mundo. Podemos citar o fato de que todas
as nascentes dos rios da bacia do Rio Branco estão
em terras indígenas, e que o status simbolicamente
sagrado que a água e os rios têm nas culturas
indígenas garantem o respeito de regras e de cuidados,
assegurando a qualidade deste importante recurso vital para
todos seus usuários rio abaixo.
Os povos
indígenas de Roraima não só prestam
este serviço em silêncio e gratuitamente, mas
se organizam, resistem e lutam contra projetos, como os
de barragens no rio Cotingo, em Raposa Serra do Sol, de
grande impacto sobre os recursos hídricos regionais.
Roraima
é o único estado da Amazônia Brasileira
que engloba em seu território todas as nascentes
de sua bacia hidrográfica - além do Amapá,
que participa de duas bacias hidrográficas de menor
importância - e, mesmo assim, não tem uma política
formal e coerente de manejo e proteção de
suas águas.
Pelo
contrário, o Governo Estadual impulsiona incessantemente
formas de ocupação e uso do território
extremamente prejudiciais à conservação
dos recursos hídricos. O exemplo do Município
de Pacaraima, criado ilegalmente em 1995 dentro da Terra
Indígena São Marcos, demarcada e homologada
desde 1992, é de particular destaque e atualidade
neste sentido.
Pacaraima
está situado no divisor de águas que define
a fronteira do Brasil com a Venezuela, o município
não possui nenhuma rede de saneamento, e o matadouro
municipal descarrega seus dejetos diretamente nas nascentes
do rio Miang, afluente do rio Surumu, prejudicando as comunidades
indígenas situadas imediatamente rio abaixo.
A expansão
do município está se efetuando a um ritmo
frenético às custas do desmatamento, da completa
omissão das autoridades ambientais municipais, estaduais
e federais. Os índios são os únicos
que, preocupados com a situação fora de controle,
e cansados da inércia das autoridades frente a suas
denúncias, resolveram, no dia 9 de dezembro de 2002,
iniciar a construção de uma cerca para tentar
frear o avanço do desmatamento na região conhecida
como Morro do Quiabo.
No dia
10 de dezembro, quando a equipe de 25 pessoas retornou ao
local para o trabalho, viram a cerca arrancada e as estacas
queimadas. Logo após eles foram cercados por 200
habitantes da vila que agrediram um servidor da Funai. Políticos
do município incentivaram a invasão da sede
do Programa São Marcos em Pacaraima, onde a população
destruiu equipamentos do órgão indigenista
federal.
Desenvolvimento só é possível
com sustentabilidade
O Conselho
Indígena de Roraima, por sua luta histórica
para a integridade territorial da Raposa Serra do Sol como
área única englobando as nascentes dos rios
Maú, Tacutu, Miang e Surumu que a delimitam, e pelo
trabalho silencioso de manejo territorial e ambiental que
os povos Macuxi, Wapichana, Taurepang e Ingarikó
sempre fizeram desta área, obteve recentemente o
reconhecimento da primeira edição do Prêmio
Chico Mendes de Meio Ambiente, o mesmo prêmio que
prestigiou a carreira de profunda militância socioambiental
da senadora Marina Silva, ex-seringueira do Acre, Ministra
brasileira do Meio Ambiente do governo Lula.
Curiosamente,
uma das propostas mais interessantes sobre a questão
fundiária e ambiental na Amazônia, muito pouco
divulgada localmente e que não recebeu até
hoje o apoio dos políticos de Roraima, mesmo que
Roraima seria o Estado proporcionalmente mais beneficiado
em toda a Amazônia, é de autoria da própria
Marina Silva.
Ela
propõe constituir um fundo nacional de solidariedade
para a Amazônia, com atenção a sua diversidade
etno-cultural e biológica, e a intenção
de "compensar" de certa forma os Estados da região
Norte por suas terras "indisponíveis" para
o desenvolvimento. O Projeto de Lei do Senado nº 053/2000
propõe a criação do Fundo de Participação
dos Estados e do Distrito Federal (FPE) para as Unidades
da Federação que abriguem em seus territórios
Unidades de Conservação da Natureza e Terras
Indígenas demarcadas, com a finalidade de financiar
o desenvolvimento ecologicamente e socialmente sustentável.
O projeto
é bloqueado por senadores cuja concepção
de desenvolvimento na Amazônia é outra, entre
eles o relator do projeto, Lúdio Coelho (PSDB-MS)
e Romero Jucá (PSDB-RR), este último autor
do projeto de lei para mineração em Terras
Indígenas.
O CIR
acredita profundamente no caminho da sustentabilidade para
o desenvolvimento, não só das terras indígenas,
mas também do Estado de Roraima e da Amazônia
como um todo. O caminho traçado por propostas como
a da próxima Ministra do Meio Ambiente é o
caminho certo. Ainda mais se a ele juntamos a existência
ao nível mundial de uma crescente disponibilidade
a pagar para serviços ambientais como a luta ao efeito
estufa, o uso sustentável da biodiversidade, a conservação
da água, bens públicos que os povos indígenas
sempre gerenciaram coletivamente e com cuidado, para o benefício
das futuras gerações, e que hoje sofrem novas
ameaças como a privatização, em benefício
do capital global.
Graças
às populações tradicionais e aos povos
indígenas, é possível conceber que
todos os habitantes da região amazônica possam
ser apoiados para suas contribuições diretas
e indiretas à conservação deste grande
patrimônio, para o benefício de todos os brasileiros,
através da criação de mecanismos de
"renda verde". Tais mecanismos os livrariam das
pressões econômicas que em muitos casos os
condenam a degradar seu estilo de vida junto a seu meio
ambiente. A definição de mecanismos deste
tipo, e o uso pertinente dos recursos financeiros que eles
tornariam disponíveis, representariam um dos pilares
de uma estratégia de desenvolvimento sustentável
para a região amazônica como um todo.
Jornalista
e Especialista em Etnodesenvolvimento e Projetos
Sustentáveis pela UFRR
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