Grupos estrangeiros compram terras
para plantar espécies que, segundo ambientalistas,
causam desequilíbrio ecológico
São Paulo, 11.02.2004 - Grupos estrangeiros estão
comprando vastas extensões de terra em Roraima e
no Amapá para plantar espécies que são
a matéria-prima da indústria da celulose.
O negócio milionário vem sendo bombardeado
por ambientalistas que acusam os donos dos megaprojetos
de pôr em risco o equilíbrio ecológico
da Amazônia.
Em Roraima, o empresário suíço Walter
Vogel já é o maior latifundiário do
estado: comprou cerca de 30 mil hectares pertencentes a
pequenos produtores e plantou a Acácia mangium, espécie
importada do sudoeste da Ásia e da Austrália
que prejudica os lençóis freáticos
por absorver quantidade excessiva de água do solo.
Apesar dos protestos, suíço continua
comprando terras
Apesar das críticas de especialistas do Instituto
Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e da objeção
do Conselho Indígena de Roraima (CIR) e de ONGs locais,
Vogel continua comprando propriedades e plantando acácias.
Seu objetivo é abastecer a BrancoCel, fábrica
de polpa de celulose de capital suíço e alemão
que começará a ser instalada na periferia
da capital, Boa Vista, até o fim do ano. O empreendimento
foi aprovado pelo Conselho de Meio Ambiente de Roraima mesmo
tendo sido constatado que as acácias provocam desequilíbrio
nas 33 espécies nativas da savana, a vegetação
típica do estado.
O projeto é uma incógnita. Não há
estudos dizendo qual será a perda de água
nas regiões de savana. Faltaram esclarecimentos e
o governo do estado passou um rolo compressor no conselho.
Estão alijando agricultores e índios do processo
— denunciou o pesquisador Reinaldo Ambrósio,
do Inpa.
No Amapá, a empresa americana Champion, do grupo
Internacional Paper, foi denunciada pelo Ministério
Público sob acusação de comprar terras
públicas griladas e de expulsar posseiros e pequenos
agricultores familiares de suas terras. A empresa, que chegou
a possuir 450 mil hectares de terra no estado para plantar
eucaliptos, não conseguiu comprovar a legalidade
de boa parte de suas propriedades e acabou tendo de devolver
terras e pagar indenizações aos posseiros,
numa guerra que envolve o governo estadual e está
longe de terminar.
A instalação da BrancoCel tem as bênçãos
do governador Flamarion Portela (PT). Ele manteve o acordo
pelo qual o governo estadual subsidiará a energia
elétrica consumida pela empresa. Como a BrancoCel
vai gastar mais energia do que todos os moradores de Boa
Vista juntos, o estado deverá gastar cerca de R$
3 milhões por ano em subsídio, sem contar
os demais incentivos fiscais.
Governo estadual diz que empresa
criará empregos
O governo de Roraima, porém, argumenta, que a Ouro
Verde, empresa de Vogel, e a BrancoCel vão criar
6 mil empregos diretos no estado e incrementar a economia
local. Está previsto um investimento de R$ 300 milhões
na fábrica e um faturamento de US$ 120 milhões/ano
com a exportação de 260 mil toneladas de polpa
de celulose por ano.
A BrancoCel é nossa última esperança
de desenvolver o estado. Na dúvida, temos de dar
o primeiro passo rumo ao desenvolvimento. Os indígenas
é que estão nos sufocando — disse Robério
Araújo, presidente da Fundação de Meio
Ambiente, Ciência e Tecnologia, que deu a licença
de instalação para a empresa suíça.