Desde
1998 o plantio de Acacia mangium vêm sendo comum em
várias áreas do lavrado de Roraima. Em muitos
casos, estas plantações estão muito
próximas ou imediatamente djacentes a áreas
de posse e uso tradicional de comunidades indígenas,
principalmente das etnias Wapichana e Macuxi e nos municípios
de Boa Vista e Cantá. Embora neste estágio
não possamos citar casos de sobreposição
de áreas de plantio com áreas indígenas,
esta possibilidade não pode ser excluída a
priori, sendo que a situação fundiária
destas terras indígenas nem sempre se encontra em
estágio definitivamente concluído, encontrando-se
tanto áreas em identificação, identificadas,
demarcadas e/ou objeto de estudo de ampliação.
Os
dados e as informações aqui mencionadas devem
ser considerados como preliminares, embora não conclusivos,
eles indicam a necessidade de se aprofundar a questão,
apontando algumas pistas de investigação.
No
dia 05/11/02 técnicos do INPA/RR foram convidados
para uma reunião junto a lideranças indígenas
da Região Serra da Lua (Município de Cantá),
reunidas em assembléia regional do Conselho Indígena
de Roraima, na comunidade Malacacheta. O objeto do convite
era pedir esclarecimentos e discutir algumas preocupações
relativas às plantações de A. mangium
e seus possíveis impactos sobre terras e comunidades
indígenas próximas.
As
principais questões levantadas foram as seguintes
:
• Desconhecimento da espécie A. mangium, dúvidas
sobre sua procedência, suas caraterísticas
biológicas, ecológicas e seu uso;
• Dúvidas sobre possível impacto de
plantações extensas desta espécie sobre
os recursos
hídricos;
• Mudanças ambientais registradas em áreas
próximas às plantações e possíveis
relacionamentos causais com elas;
Os técnicos do INPA forneceram informações
básicas sobre a procedência (Austrália
e Nova Zelândia) e as caraterísticas biológicas
e ecológicas da A. mangium (espécie pioneira,
boa adaptação a condições pedoclimáticas
difíceis, enraizaimento profundo, rápida resposta
à insolação e baixo nível de
nutrientes, uso para recuperação de áreas
degradadas, etc.) assim como sobre o uso previsto das plantações
de Roraima para alimentar uma fábrica de polpa de
celulose a ser instalada em Boa Vista ou Mucajaí
(local ainda a ser definido). Com relação
ao possível impacto das plantações
sobre os recursos hídricos, foi explicitada a falta
de estudos e avaliações científicas,
junto a algumas hipóteses a ser testadas, inclusive
com a possível participação dos índios,
como observadores do andamento de variáveis, como
o nível do lençol freático e indicadores
de possíveis anomalias.
Em
seguida os índios foram convidados a se manifestarem
sobre possíveis mudanças e/ou interferências
ambientais observadas. Seguem os principais registros feitos
pelos indígenas.
• Cerca de 2000 mudas de A. mangium foram doadas para
a comunidade de Tabalascada. Elas não foram plantadas,
pois trata-se de uma espécie desconhecida, que não
se sabe qual a utilidade e/ou o impacto. No entanto, informações
levantadas em encontros com trabalhadores rurais, alimentaram
uma preocupação sobre possíveis impactos
negativos de plantações em grande escala,
que já estão cercando algumas terras indígenas,
apresentando se até como uma ameaça de invasão
dessas terras. Está sendo observado um processo de
mudança da paisagem do lavrado, percebido com preocupação
pois não se sabe as conseqüências que
isto pode trazer.
•
O que vem sendo observado nas plantações de
acácia é que há uma grande abundância
de abelhas (Apis meliffera L. – principalmente). Essas
abelhas estão se espalhando e proliferando nos buritizais
das terras indígenas onde existem plantações
próximas, dificultando a coleta de palhas para suas
construções habitacionais. Em várias
ocasiões as famílias indígenas tiveram
que desistir de coletar a palha do buriti pelo medo de ataque
dos enxames de abelhas. Existiam abelhas nos buritizais
anteriormeente ao plantio das acácias. Entrtanto,
nunca se viram enxames tão grandes e numerosos. Segundo
a observação de uma das lideranças,
« ... se continuar assim, logo não vai ser
mais possível aproveitar os buritizais ... ».
Até a perambulação nas áreas
fica perigosa, pois as plantações estão
encostadas, cercando áreas indígenas pequenas
como Tabalascada e Malacacheta. Também as abelhas
podem se espalhar e aumentar nas roças e chegar a
atacar o gado e outras criações. Além
disso, as abelhas estão fazendo um mel diferente,
mais escuro. Ao que tudo indica, de pouca atratividade aos
indígenas.
•
Se já agora, ainda com as acácias em expansão,
há problemas de hiper-proliferação
e invasão de abelhas nas áreas próximas,
há uma clara preocupação dos índios
com o que pode acontecer quando começar o corte das
árvores para uso de sua matéria prima : o
risco que grandes enxames de abelhas famintos se espalharem
ainda mais pelas áreas próximas é percebido
como real e assustador.
•
O tuxaua da Tabalascada detectou uma mudança na cor
(avermelhamento) e no gosto (de ferrugem) da água
de alguns igarapés, não se conhecendo as causas
possíveis deste fenômeno. De forma geral já
há vários anos vem se observando um processo
de diminuição dos recursos hídricos,
mas este vem sendo relacionado com as condições
climáticas, ou seja maior intensidade e duração
da estação seca.
Foi
realizada junto a duas lideranças uma breve visita
a uma plantação de acácia encostada
na divisada Terra Indígena Malacacheta, constatando-se
a distância de poucas dezenas de metros de um buritizal,
justamente um daqueles onde foi denunciada a proliferação
de abelhas. Além da intensa presença e atividade
de abelhas na plantação, detectada tanto de
forma visual quanto pelo intenso barulho de fundo, foi constatada,
no solo coberto de folhagem, uma intensa população
de formigas e a presença de pragas (lagartas verdes)
indicadas como perigosas e cáusticas (causadoras
de queimada) no contato com a pele. A presença destas
pragas é percebida como um risco, podendo se espalhar
nas áreas, nas roças de subsistência
e até nas malocas indígenas. Segundo os índios,
estas pragas estariam sendo combatidas pelos donos das plantações
com nebulizações de produtos químicos
desconhecidos, cujo impacto no ambiente e nas terras indígenas
próximas também representa uma incógnita
percebida com preocupação.