Nota preliminar sobre impactos das plantações de Acacia mangium Wild
sobre terras e populações indígenas de Roraima


Contribuição para a audiência pública do dia 13/11/02.
Vincenzo Lauriola, Reinaldo Imbrozio Barbosa, Herundino Ribeiro do Nascimento Filho
INPA/Roraima

Boa Vista (RR), 11 de novembro de 2002.


Desde 1998 o plantio de Acacia mangium vêm sendo comum em várias áreas do lavrado de Roraima. Em muitos casos, estas plantações estão muito próximas ou imediatamente djacentes a áreas de posse e uso tradicional de comunidades indígenas, principalmente das etnias Wapichana e Macuxi e nos municípios de Boa Vista e Cantá. Embora neste estágio não possamos citar casos de sobreposição de áreas de plantio com áreas indígenas, esta possibilidade não pode ser excluída a priori, sendo que a situação fundiária destas terras indígenas nem sempre se encontra em estágio definitivamente concluído, encontrando-se tanto áreas em identificação, identificadas, demarcadas e/ou objeto de estudo de ampliação.

Os dados e as informações aqui mencionadas devem ser considerados como preliminares, embora não conclusivos, eles indicam a necessidade de se aprofundar a questão, apontando algumas pistas de investigação.

No dia 05/11/02 técnicos do INPA/RR foram convidados para uma reunião junto a lideranças indígenas da Região Serra da Lua (Município de Cantá), reunidas em assembléia regional do Conselho Indígena de Roraima, na comunidade Malacacheta. O objeto do convite era pedir esclarecimentos e discutir algumas preocupações relativas às plantações de A. mangium e seus possíveis impactos sobre terras e comunidades indígenas próximas.

As principais questões levantadas foram as seguintes :
• Desconhecimento da espécie A. mangium, dúvidas sobre sua procedência, suas caraterísticas biológicas, ecológicas e seu uso;
• Dúvidas sobre possível impacto de plantações extensas desta espécie sobre os recursos
hídricos;
• Mudanças ambientais registradas em áreas próximas às plantações e possíveis
relacionamentos causais com elas;

Os técnicos do INPA forneceram informações básicas sobre a procedência (Austrália e Nova Zelândia) e as caraterísticas biológicas e ecológicas da A. mangium (espécie pioneira, boa adaptação a condições pedoclimáticas difíceis, enraizaimento profundo, rápida resposta à insolação e baixo nível de nutrientes, uso para recuperação de áreas degradadas, etc.) assim como sobre o uso previsto das plantações de Roraima para alimentar uma fábrica de polpa de celulose a ser instalada em Boa Vista ou Mucajaí (local ainda a ser definido). Com relação ao possível impacto das plantações sobre os recursos hídricos, foi explicitada a falta de estudos e avaliações científicas, junto a algumas hipóteses a ser testadas, inclusive com a possível participação dos índios, como observadores do andamento de variáveis, como o nível do lençol freático e indicadores de possíveis anomalias.

Em seguida os índios foram convidados a se manifestarem sobre possíveis mudanças e/ou interferências ambientais observadas. Seguem os principais registros feitos pelos indígenas.
• Cerca de 2000 mudas de A. mangium foram doadas para a comunidade de Tabalascada. Elas não foram plantadas, pois trata-se de uma espécie desconhecida, que não se sabe qual a utilidade e/ou o impacto. No entanto, informações levantadas em encontros com trabalhadores rurais, alimentaram uma preocupação sobre possíveis impactos negativos de plantações em grande escala, que já estão cercando algumas terras indígenas, apresentando se até como uma ameaça de invasão dessas terras. Está sendo observado um processo de mudança da paisagem do lavrado, percebido com preocupação pois não se sabe as conseqüências que isto pode trazer.

• O que vem sendo observado nas plantações de acácia é que há uma grande abundância de abelhas (Apis meliffera L. – principalmente). Essas abelhas estão se espalhando e proliferando nos buritizais das terras indígenas onde existem plantações próximas, dificultando a coleta de palhas para suas construções habitacionais. Em várias ocasiões as famílias indígenas tiveram que desistir de coletar a palha do buriti pelo medo de ataque dos enxames de abelhas. Existiam abelhas nos buritizais anteriormeente ao plantio das acácias. Entrtanto, nunca se viram enxames tão grandes e numerosos. Segundo a observação de uma das lideranças, « ... se continuar assim, logo não vai ser mais possível aproveitar os buritizais ... ». Até a perambulação nas áreas fica perigosa, pois as plantações estão encostadas, cercando áreas indígenas pequenas como Tabalascada e Malacacheta. Também as abelhas podem se espalhar e aumentar nas roças e chegar a atacar o gado e outras criações. Além disso, as abelhas estão fazendo um mel diferente, mais escuro. Ao que tudo indica, de pouca atratividade aos indígenas.

• Se já agora, ainda com as acácias em expansão, há problemas de hiper-proliferação e invasão de abelhas nas áreas próximas, há uma clara preocupação dos índios com o que pode acontecer quando começar o corte das árvores para uso de sua matéria prima : o risco que grandes enxames de abelhas famintos se espalharem ainda mais pelas áreas próximas é percebido como real e assustador.

• O tuxaua da Tabalascada detectou uma mudança na cor (avermelhamento) e no gosto (de ferrugem) da água de alguns igarapés, não se conhecendo as causas possíveis deste fenômeno. De forma geral já há vários anos vem se observando um processo de diminuição dos recursos hídricos, mas este vem sendo relacionado com as condições climáticas, ou seja maior intensidade e duração da estação seca.

Foi realizada junto a duas lideranças uma breve visita a uma plantação de acácia encostada na divisada Terra Indígena Malacacheta, constatando-se a distância de poucas dezenas de metros de um buritizal, justamente um daqueles onde foi denunciada a proliferação de abelhas. Além da intensa presença e atividade de abelhas na plantação, detectada tanto de forma visual quanto pelo intenso barulho de fundo, foi constatada, no solo coberto de folhagem, uma intensa população de formigas e a presença de pragas (lagartas verdes) indicadas como perigosas e cáusticas (causadoras de queimada) no contato com a pele. A presença destas pragas é percebida como um risco, podendo se espalhar nas áreas, nas roças de subsistência e até nas malocas indígenas. Segundo os índios, estas pragas estariam sendo combatidas pelos donos das plantações com nebulizações de produtos químicos desconhecidos, cujo impacto no ambiente e nas terras indígenas próximas também representa uma incógnita percebida com preocupação.