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Saldo
de uma tragédia anunciada
No dia 23 de novembro de 2004 três arrozeiros lideraram um
grupo de cerca de 40 homens armados - entre eles indígenas
contrários à homologação em área
contínua da Terra Indígena Raposa Serra do Sol - num
ataque criminoso às comunidades indígenas Jawari,
Brilho do Sol, Homologação e do retiro São
José, localizadas na Terra Indígena Raposa Serra do
Sol. Durante a madrugada de terror, após ter bloqueado a
estrada e o acesso à região, o grupo destruiu as roças
existentes nas comunidades matando os pequenos animais, destruiu
com tratores as casas de alvenaria existentes e ateou fogo nas demais
que, feitas de madeira e palha, arderam por completo. O Posto de
saúde que atendia as comunidades também foi destruído.
As famílias desabrigadas - entre eles 35 adultos e crianças
- foram obrigadas a deixar o local sem levar nenhum pertence, roupa
ou alimento, que também foram queimados. Segundo diversos
depoimentos de testemunhas da ação criminosa, existe
uma pessoa desaparecida: Nelson da Silva. No local onde ele foi
visto pela última vez foram encontrados seus documentos e
manchas de sangue.
Ironia
macabra
Horas depois do atentado, o Ministro da Justiça, Márcio
Thomaz Bastos desembarcava no Aeroporto Internacional de Boa Vista
para divulgar em Roraima a Campanha pelo Desarmamento, promovida
pelo governo Federal. Ao mesmo tempo chegava também um pequeno
avião trazendo um indígena da comunidade Jawari baleado
na cabeça e no braço.
Segundo depoimento prestado na Polícia Federal pelo tuxaua
do Jawari, Júnior Constantino, a vítima de tentativa
de homicídio é seu irmão, Jocivaldo Constantino,
que depois de baleado ainda foi espancado e amarrado. Jocivaldo
Constantino reconheceu o carro de onde foram feitos os disparos
como sendo de propriedade do arrozeiro Paulo César Quartiero,
também reconhecido pelas vítimas do ataque como um
dos líderes da ação criminosa, juntamente com
outros dois arrozeiros: Ivo Barelli e Ivalcir Centenário.
Após receber a denúncia, a Polícia Federal
enviou ao local uma equipe acompanhada por agentes da Funai, Polícia
Civil e Militar e iniciou as investigações e perícia
da cena do crime, tomando o depoimento das testemunhas e vítimas
do atentado. Uma equipe do Conselho Indígena de Roraima também
acompanhou os trabalhos no local. Segundo informações
repassadas pelos tuxauas, o Exército Brasileiro enviou soldados
para a aldeia Pedra Branca onde estão concentrados indígenas
ligados ao CIR.
O coordenador do CIR, Jacir de Souza Macuxi, registrou a denúncia
de destruição das três aldeias e do retiro São
José na Polícia Federal e solicitou a prisão
preventiva dos culpados. Em nota, a Diocese de Roraima repudiou
as sucessivas violências praticadas por arrozeiros contra
indígenas da Raposa Serra do Sol e iniciou uma campanha para
adquirir agasalhos e alimentos para os indígenas das aldeias
destruídas.
CDH
da Câmara Federal vem a Roraima constatar violência
contra indígenas
A
comitiva formada por 14 líderes da Raposa Serra do Sol, que
se encontrava em Brasília desde o dia 21 de novembro participando
da Conferência Terra e Água, procurou a Comissão
de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados para
pedir apoio na investigação dos atos violentos praticados
por arrozeiros contra três comunidades indígenas de
Roraima no dia 23 de novembro.
A
CDH aceitou o requerimento e irá visitar as aldeias destruídas.
A deputada Irini Lopes (PT/ES), titular da Comissão da Câmara,
ja confirmou que integrará a comitiva que irá a Roraima
antes do final do mês de novembro.
Em
nome da comitiva, Joênia Wapicahana, advogada do Conselho
Indígena de Roraima (CIR), também solicitou do Assessor
Especial da Presidência, César Alvarez, uma força-tarefa
federal permanente para evitar novos conflitos. Alvarez informou
que havia requerido apoio do Exército Brasileiro para manter
a ordem na região até que um efetivo da Polícia
Federal fosse deslocado para apurar as denúncias.
Contatado
pelo líder Macuxi Júlio José de Souza, o presidente
da Funai, Mércio Pereira Gomes disse que vai “fazer
o possível para evitar mais conflitos e cobrar rigor da Policia
Federal nas investigaões”.
Artigo
do Mês
Crimes
na Terra de Makunaima… entre plantações e populações
Recebemos a notícia que mais um indígena foi baleado
na TIRSS, um outro continua desaparecido, seus retiros e casas foram
queimados e destruídos. Imaginamos a cena de terror que rompeu
uma noite de sono na terra de Makunaima. Surpresos?!? Infelizmente
não. O clima de ameaças e ações violentas
não terminou com a liberação das vias de acesso
a capital do estado de Roraima em janeiro deste ano.
O crime acontece dentro de uma área em processo de homologação
para ser definitivamente reconhecida como Terra Indígena
Raposa Serra do Sol. Porém, paralelo a este processo, se
iniciou um outro, um processo de técnicas, discurso de progresso,
racionalismo, modernização que as plantações
de arroz poderiam trazer para o Estado de Roraima. Este processo,
iniciado muito tempo depois do processo de demarcação
da TIRSS, não reconhece no direito indígena e sua
legitimidade, apontando-o como o seu contrário, ou seja:
impedimento para o progresso, irracional, retrógrado do ponto
de vista tecnológico. Com esta outra lógica, pode
conseguir apoio institucional no estado de Roraima e avançar
naquele território com suas técnicas de monocultura,
uso abundante da água dos rios e igarapés e uso de
agrotóxicos ainda não avaliados ou licenciados pelas
autoridades competentes como o IBAMA que, aliás, permanece
deliberadamente ausente.
Mais uma vez, neste conflito de interesses e projetos para a área
em questão, vem à tona a discórdia entre índios,
pró e contra a homologação da TIRSS em área
continua. Será mesmo real este conflito? Quais os interesses
econômicos que estão sendo afetados nas proximidades
das plantações de arroz?
Sobre os números sabemos muito pouco. Quanto de imposto as
plantações de arroz contribuíram para com o
Estado de Roraima? Quantos são os números de trabalhadores
fixos ou sazonais? Quais os tipos de trabalho que realizam? Quais
são os salários dos empregados e o lucro médio
das empresas? - dados estes disponíveis por várias
empresas brasileiras. Portanto, uma avaliação objetiva
do ponto de vista social é limitada por falta de informações.
Há porém, outros cálculos sociais a serem feitos.
Um deles é a homologação da TI RSS, que beneficiaria
uma população de mais de 18.000 indígenas das
etnias Macuxi, Wapichana, Ingaricó, Patamona, com línguas
diversas, saberes diversos, e poderia ser a segurança social
e ambiental para as suas futuras gerações.
A homologação coloca na verdade duas lógicas
em oposição. Uma defende interesses privados de rizicultores,
a outra, interesses sociais e culturais das etnias que vivem na
RSS. Não há outra. As diferentes posições
entre as lideranças indígenas sobre projetos futuros
para sua Terra poderão concorrer entre si, alguns mais adeptos
a uma adesão radical as “novas tecnologias”,
outros mais críticos, mas não, definitivamente interesses
excludentes. Claro que aqueles que não se reconhecem na propriedade
coletiva da Terra Indígena também terão muito
que debater, mas uma vez garantida o seu direito originário,
este debate poderá continuar. Temos inúmeros exemplos
na literatura antropológica, sobre a capacidade das lideranças
indígenas em resolverem suas discórdias. Vale a pena
registrar que temos muitos estudos sobre os mecanismos de resoluções
de conflitos entre indígenas nesta região. Entre estes
mecanismos, o uso coletivo de força para destruir casas de
outros indígenas tem sido registrado nos últimos séculos
como uma prática violenta exercida por “não
índios” contra indígenas. Isso teria mudado?
Ainda sobre o real conflito, sabemos que as plantações
dos arrozeiros não poderão permanecer na TIRSS: aqui
sim temos disputa por interesses opostos. Este conflito irá
continuar até que a questão fundiária seja
resolvida. E que a Justiça puna os responsáveis pelos
crimes cometidos. Quem se mudará? As plantações
(de arroz) ou as populações (indígenas)? Quem
permanecerá com direito sobre as terras? Qual seria afinal,
a maior riqueza para o estado de Roraima e para o Brasil: a da diversidade
cultural, lingüísticas e dos saberes das populações
indígenas ou as plantações de arroz, mesmo
que realizadas consciente e deliberadamente em área indígena
e não licenciadas pelos órgãos competentes?
Porque a insistência desesperada em permanecer ali, se segundo
a Embrapa, existiriam mais de 28.000 Km² de terras livres e
aptas para a agricultura no Estado de Roraima, ou seja, mais de
uma vez e meia a extensão total da Raposa Serra do Sol e
cinco vezes mais da área pleiteada pelos rizicultores dentro
dela? Quem afinal poderia se beneficiar com a manutenção
deste conflito? Porque o Governo do Estado de Roraima nunca propôs
uma alternativa, que não fosse aquela da permanência
dos rizicultores na Terra Indígena?
Como foi marcada na história social dos povos, a luta por
interesses divergentes deixa marcas. Aqui, infelizmente, impera
a impunidade contra aqueles acusados de praticarem crimes contra
os indígenas... Quem pode avaliar o que é mais grave:
seqüestros, agressões morais e físicas, ameaças,
tentativas de homicídio, assassinatos, queima de casas e
retiros... a lista poderia se alongar muito.
Roraima está pagando um preço alto para ter seu orçamento
gerenciado dentro da lei, para que os seus cidadãos tenham
seus direitos garantidos, para que a privatização
do público tenha um fim. Esperamos que a homologação
da RSS faça parte deste momento histórico, onde os
direitos e benefícios privados deverão ter o respaldo
da lei e o dinheiro público permanecer público.
O lamentável assassinato do indígena Aldo Mota Macuxi
envergonhou a todos, quando o IML de Brasília esclareceu
as condições de sua execução, após
o laudo falso do IML local. Estes atos assim como a destruição
de roças e casas de famílias indígenas, por
tratores dos rizicultores, envergonha novamente o Estado de Roraima,
que passa por um processo difícil de moralização
de suas instituições. A pergunta e a angustia que
fica é: quem pode apoiar atos dessa natureza? Quem pode defender
que uma pessoa que queira ter uma vida pública, gerenciar
recursos públicos, possa participar de atos de extrema violência?
Esperamos que seja apenas um grupo minoritário, e que as
lideranças políticas e as autoridades do Estado e
do Governo Federal usem de sua prerrogativas institucionais para
dar garantia a um processo de moralização e democratização
em Roraima.
| Elaine
Moreira
Departamento de Antropologia da UFRR |
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